segunda-feira, 18 de novembro de 2013

J. Pereira, "No Mundo dos Discos"...

J. Pereira
J. Pereira nasceu em São Paulo, em 1919, e iniciou sua vida jornalística ainda na adolescência, como foca, no Estadão. No fim da década de 40 teve breve passagem pelo jornal O Dia, onde era encarregado de cobrir a Câmara Municipal. Lá, além de roçar ombros com expoentes do jornalismo como Wenceslau Arco e Flexa (da Gazeta) e o já respeitado Herculano Pires (dos Diários Associados), conheceu o jovem Jânio Quadros. Por sinal, não deixa de ser uma ironia que noticiasse as atividades parlamentares do mato-grossense que seria, pouco depois, seu norte político, para um jornal que trabalhava a soldo de Adhemar de Barros. Pura coincidência. J. ficou lá pouco tempo. O jornal serviu de trampolim para sua entrada nos Diários Associados de Assis Chateaubriand.

Todos os jornais tinham seu crítico musical e sua coluna especializada. Os Diários de Chatô também; no caso do Diário da Noite, o noticiário musical vinha espalhado em colunas de rádio ou de arte. O crescimento da indústria fonográfica e a conseqüente venda cada vez maior de rádios e vitrolas, porém, fez com que aumentasse também a demanda por um comentário musical mais substancioso e específico. J. Pereira foi, então, chamado para escrever uma coluna diária de música, batizada de “No Mundo dos Discos”.

Diário de S. Paulo, 16/1/50

Não é exagero dizer que ele aprendeu fazendo. Com apenas 30 anos, seu conhecimento de música, embora razoável, não deixava de ser limitado e ele mesmo foi rápido em afirmar, em uma de suas colunas, que não era um “crítico” mas um “amante” dos discos. Ou, para usar o neologismo que ele empregou várias vezes (criado por ele ou usado à época), um “discófilo”.

Não farei uma análise profunda do material porque ele fala por si só. Eu também não sou nenhum expert, então o certo é que cada um o interprete, o desfrute e o utilize como quiser. Sobre o próprio J. dou minha impressão pessoal: ele era inteligente, perspicaz, sensível, assimilava as informações com rapidez e seu aprendizado é visível; seus comentários — a princípio superficiais — vão melhorando de coluna a coluna até o ponto em que ele discorre com fluidez e conhecimento sobre os mais variados estilos musicais. Prova disso é que com apenas três meses de coluna ele ganhou o programa Feira de Discos na Rádio Difusora (uma das emissoras da Tupi), onde falava diariamente, por meia hora, sobre lançamentos e novidades musicais.

Diário da Noite, 26/7/50

A coluna do Diário da Noite era, a rigor, sobre todos os tipos de música, desde os mais humildes regionais até as mais sofisticadas orquestras, então a vitrola de J. tinha que ser eclética. Isso não o impedia, aqui e ali, de externar sua própria opinião, que podia mudar naturalmente, com o tempo. E com a cultura que adquiria diariamente, desde que os discos deixaram de ser hobby para virar profissão. É patente, no início, um certo desprezo pelos regionais e um deslumbramento com as grandes orquestras. Passados alguns dias e conhecendo mais a fundo o repertório desses regionais, J. voltava e dava a mão à palmatória. Ele podia condenar composições de apelo estritamente popular como General da Banda, mas não sopitava o carinho pelo cantor Blackout; na mesma linha, ele era um amante das big bands, das orquestras de Carioca, de Severino Araújo e de Zaccarias, mas ficou absolutamente apaixonado pela música de Luiz Gonzaga. Também não escondia sua absoluta admiração por Edú da Gaita e Radamés Gnatalli.

O jovem Luiz Gonzaga
J., com efeito, não era o crítico quadrado e acadêmico. Era o consumidor que dava sua opinião. E nessa condição ele se via na liberdade, por exemplo, de dar pitos em compositores, como fez com Luiz Peixoto por conta da letra — “terrível, quase imoral” — de Na Batucada da Vida, ou exprobrar a lavagem da roupa suja de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins em público, já que o tenebroso rompimento do casal se deu nesse primeiro ano de J. à frente de “No Mundo dos Discos”. Cansado daquela troca de sopapos — hoje clássica — que veio na forma de composições de um e outro lado, J. desabafou: “Tudo isso é profundamente ridículo, produto que é da insensatez e da sede de popularidade, ainda que para matá-la, se lance mão de um drama conjugal, que jamais deveria ser trazido a público, ainda mais da maneira como foi feita”. Já ao barítono italiano Gino Bechi, Pereira não perdoava o exagero no emprego da privilegiada voz em canções populares:  “Por que, Santo Deus, gritar tanto? Será isso cantar?! É de estranhar que ninguém ainda tenha tido a necessária sinceridade, brutal e talvez antipática, como a nossa, para chamar a atenção do famoso barítono para esse fato”.

Longe de torná-lo inoportuno ou intrometido, esses comentários transformam seu texto em algo vivo, pulsante, com alma. Sua coluna não é formal e abúlica. Tem ouvidos e tem coração. Ele era conservador, meio santarrão, com aquele falso moralismo muito próprio aos homens dos anos 30 e 40, mas tinha coerência e não era intransigente. Critica hoje o artista que elogiará amanhã como não mede palavras no repúdio ao trabalho menor de alguém que mereceu seu louvor, e de quem ele obviamente esperava mais.

Dalva de Oliveira
E isso não valia apenas para os artistas; J. seguia um princípio holístico, democrático, de eqüidade, que começava no vendedor das lojas. Se não se sentia bem tratado pelos funcionários, a coluna se transformava em tribuna popular de reclamações:

Lidar com o público é coisa que demanda muita arte e dose imensa de paciência. Entretanto, certos empregados de determinadas lojas revendedoras da cidade desconhecem a arte de vender e não são dotados de um pingo de paciência. Quando a loja se movimenta, tratam mal o cliente, espantando-o para longe. Cumpre aos proprietários desses estabelecimentos observar melhor a conduta dos seus funcionários. O público já está aborrecido com essas demonstrações de incivilidade.

E dali até o topo da pirâmide: o grande empresário, dono das gravadoras; é evidente que ele dá uma cobertura muito maior para os lançamentos que envolvem os contratados da Tupi, a rádio de Chateaubriand, mas momento haverá em que J. proclamará em alto e bom som a sua independência intelectual. Suas críticas provocarão mensagens de desagrado desta ou daquela gravadora. Pobre e honesto (como foi toda a vida, mesmo depois de passar pelos mais altos cargos políticos) ele não permitirá que ilusões sejam criadas sobre a possibilidade de “jabás” ou de protecionismos:

Não temos preferência pelos produtos desta ou daquela empresa gravadora. Todas elas, pequenas ou grandes, terão o mesmo acolhimento por esta coluna, isto é, serão tratadas no mesmo pé de igualdade. Se o que produzirem for bom, aqui estaremos para aplaudir. Se mau, não teremos dúvida em dizê-lo com a mesma sinceridade e independência, de acordo, aliás, com o compromisso que assumimos, repetimos, com o público.

O mais é a época. Hoje pode parecer ridículo J. ocasionalmente se referir a negros como “colored” mas era tratamento habitual daquele tempo. Não há qualquer racismo em sua colocação. É tão datado quanto ele incluir em sua coluna uma apreciação sobre os “chiados, estalidos e bolhas” de cada disco, se referir à “cera”, à “massa dura”, e falar com espanto e admiração do disco de 33 rotações e seu inacreditável “microgroove”. Pior do que o “colored”, e ainda assim, culpa da época, é o supino ridículo de traduções como Tristezas de São Luiz (St. Louis Blues) ou “Não Podem Tirar-mo” (They Can't Take That Away From Me). 

Hebe Camargo
“No Mundo dos Discos” — fora de seu inestimável valor no que tange à crítica de toda a música que se fazia naquele tempo — deve ser visto como um documentário sobre a indústria fonográfica nos anos 40 e início dos 50. A consolidação das gravadoras, a inclusão de São Paulo nesse mapa empresarial, o papel do Carnaval e a propaganda. A consagração de mitos como Chico Alves e Bidú Sayão. O surgimento de talentos como Luiz Gonzaga, Ademilde Fonseca e Jorge Goulart. De talentos momentâneos como Norma Ardanuy. De artistas que foram brilhar em outras áreas, como Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Ivon Cury. Dos boleros de Gregorio Barrios e Fernando Albuerne. Das canções italianas de Gino Bechi e Oscar Carboni. Do vozeirão de Gigli e Tito Schipa. De Charles Trenet e Yves Montand. De Tony Martin e Sinatra, cuja possível vinda ao Brasil se comentou já em 50, e se concretizaria só 30 anos depois. De Arthur Fiedler e Malcolm Sargent. E esse é só o começo.

Um tempo em que o artista gravava duas músicas por mês e tinha seu disco, com uma música em cada lado, inserido no “suplemento mensal” da gravadora. Gravadora essa, aliás, cujo modus operandi se assemelha, hoje, ao de um time de futebol. O artista não existia tanto individualmente, quanto como membro de uma gravadora. A gravadora era seu time, os artistas eram seus colegas e quando um artista trocava de gravadora — geralmente por um contrato mais rentável — o meio ficava em polvorosa.

Quem ganhava, entretanto, era sempre a gravadora. O artista podia se sobressair, ter seu disco vendido fora do suplemento, vender centenas de milhares de cópias, e quem enriquecia era o empresário. Era a Odeon, a Victor, a Elite, a Decca, a Cetra, a Continental, a His Master’s Voice, Star, Capitol, Parlophone, Columbia, Polydor...


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Alguns avisos simples para os leitores:

  • Clicando no artigo a foto aparece em alta resolução.
  • Como é praxe em todos os meus blogs, fiz absoluta questão de NÃO utilizar marcas d'água, dispositivos para impedir cópias de fotos ou textos, e coisas do gênero porque considero isso de um egoísmo estúpido e mercenário. Blogueiros e pesquisadores há por aí, que chegaram a um ponto de estragar seu próprio trabalho pela adição esquizofrênica de marcas, siglas, nomes e assim por diante. Não farei isso. Quem quiser copiar, copie. Mas dê crédito a J. Pereira, que foi quem escreveu tudo. E se quiser, dê crédito ao blog.
  • A indicação “Na foto” é referente à foto que se encontra no centro de cada artigo de J., e o respectivo texto abaixo dela.
  • Na transcrição procurei ser fidelíssimo ao texto mas acho que isso tem limites. As ferramentas de pesquisa naquela época eram toscas e são milhares as vezes em que J. vai grafar nomes de forma equivocada. Não vejo razão para perpetuar erros que não ajudam (e aliás, confundem) a quem quer que seja. Sempre que possível, corrijo os equívocos dessa natureza.
  • Erros na diagramação do jornal não eram comuns mas aconteciam. Encavalamento de linhas ou supressão de uma ou de outra, deixando o texto sem pé nem cabeça. Quando possível, coloco o texto na forma correta. Se não, vai uma indicação em reticências.

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Tive o supremo prazer de conhecer J. Pereira pouco antes de seu falecimento, no ano 2.000. Entrevistei-o algumas vezes para minha biografia de Jânio Quadros e tive várias conversas telefônicas com ele. Falamos sobre todos os assuntos e foi em uma de tantas prosas que fiquei sabendo desta faceta de seu talento jornalístico. Não tendo guardado seus próprios artigos, pediu-me, se algum dia eu tivesse acesso ao arquivo dos Diários, que procurasse sua “pasta”. Quis o destino que eu encontrasse nos Diários, alguns anos depois da partida de J., o seu “No Mundo do Discos”.

Pouco falamos sobre isso, em nossas conversas, e dentre as obras posteriores de J. não há (que eu saiba) trabalhos específicos sobre música. Há sobre censura, violência, comunicação, cinema, etc., mas nada sobre o primeiro assunto no qual ele se aprofundou, em termos jornalísticos. Não sei por quê. A coluna de J. ficou anos no Diário da Noite, então imagina-se talvez que o tema tenha se esgotado em sua cabeça. Seja como for, ele me contou uma história sobre ele, Chatô e Dóris Monteiro que qualquer dia contarei aqui. Não conto agora porque antes preciso reencontrar as fitas de minhas conversas com Pereira, para não dizer nada que não esteja documentado.

O autógrafo do querido J., no livro pelo qual ele é conhecido até hoje















Concluo dizendo o seguinte: este é um trabalho de pura devoção e saudade. Realizei-o única e exclusivamente para homenagear a memória desse grande jornalista e querido amigo que foi José Pereira. Não tive patrocínio. Não tive isenção de coisa nenhuma. Sabemos bem quem é que ganha isenção fiscal para criar blogs, no Brasil. Não estou nessa privilegiada confraria. Não ganhei e nem ganho NADA fazendo-o. Dou-me a liberdade de anunciar meu livro sobre Jânio aqui, mas é só. Não há um único centavo em tudo isto, a não ser aquele que gastei e continuo gastando.

“O Brasil é um país sem memória”. Frase sovada, cediça... Melhor que repeti-la pela milésima vez, é fazer algo a respeito. Trazer J. Pereira dos arquivos empoeirados e de difícil acesso, para a Internet, ao nosso lado e ao mesmo tempo para o mundo todo, como ele jamais sonhou que poderia, falando com tanta força, tanto vigor, sobre música, 63 anos depois, é fazer algo a respeito.

Divirtam-se.
Divulguem.
Compartilhem.

E um abraço de gratidão e saudade a você, meu querido e sofrido J.

Bernardo Schmidt
18/11/2013

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