domingo, 29 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 16 de agosto de 1950

GRAVADORA EM FESTA
                          
No próximo dia 16, com a presença de altas autoridades estaduais e municipais, de São Paulo e de São Bernardo do Campo, bem assim de convidados especiais e de artistas do Rio e de São Paulo, terá lugar a inauguração oficial da fábrica de discos Odeon, instalada no vizinho município de São Bernardo do Campo.

Já tivemos ocasião de nos referir à aludida fábrica, bem como as demais, do gênero, instaladas em território paulista. São Paulo possui três grandes fábricas de discos: a Continental, a mais antiga; a Victor, à qual está anexa à seção de montagens de rádios etc.; e, agora, a Odeon, cuja inauguração oficial dar-se-á dentro de poucos dias. Mesmo assim, São Paulo está perdendo para o Rio de Janeiro, onde se acham instaladas nada menos de cinco firmas gravadoras: a Continental, a Victor, a Odeon, a Som, que prensa os discos Star e fabricou até pouco tempo os discos da Capitol; e a Sinter S.A., recém-inaugurada e que industrializará os discos Capitol nacionais. Não conhecemos as instalações das fábricas cariocas. Todavia, pelas notícias que nos chegam, parece que as mais perfeitas, quer pela localização, quer pelo sistema arquitetônico cientifico empregado, são mesmo as da Sinter S.A.

Hebe Camargo
Para abrilhantar a festa inaugural da sua fábrica paulista, a diretoria da Odeon, segundo fomos informados, mandou convidar especialmente os seus maiores cartazes cariocas, como Francisco Alves, o mais antigo artista vivo do prestigioso selo; Dircinha Batista, Dalva de Oliveira, David Nasser, o famoso repórter Associado, que é também compositor, além de outros. Os artistas paulistas, que gravam para a empresa, como Hebe Camargo, Wilson Roberto, Norma Ardanuy, Risadinha e outros, farão parte da comissão de recepção aos seus colegas da capital da República. As diretorias de todos as demais gravadoras também foram convidadas, bem assim as rádios emissoras paulistas, os jornais, os cronistas especializados, as diretorias das casas revendedoras, editores musicais, maestros, músicos, etc. Tudo, assim, promete ser uma excelente festa de confraternização artística e, por que não dizê-lo, comercial, porquanto estarão reunidos os representantes da Odeon, da Continental, da Victor, da Elite, da Star, da Capitol...

Homenagens, na ocasião, serão prestadas a diretores e a artistas da etiqueta do pequeno templo. Francisco Alves, ao que soubemos, será alvo de expressiva manifestação de apreço e admiração, da qual serão portadores os seus colegas de São Paulo. A inauguração da fábrica de São Bernardo do Campo, portanto, além de constituir um grande acontecimento para a indústria do disco em São Paulo, dará ensejo a uma magnífica festa de confraternização artística entre os dois maiores centros do país – São Paulo e Rio de Janeiro.

Especialmente convidados, é evidente que tudo faremos para não perder essa festa.

Jornal de Notícias, 7/1/50 - Clique para ver em alta resolução

Na foto: Francisco Alves é um dos mais antigos artistas da etiqueta Odeon. Por ocasião da festa inaugural da fábrica da referida etiqueta, em São Bernardo do Campo, o “velho” Chico será alvo de significativas homenagens por parte dos seus colegas paulistas, “astros” do mesmo selo.

Diário da Noite, 14 de agosto de 1950

CLÁSSICO ESPANHOL

A Columbia americana lançou, não faz muito tempo, um álbum contendo dois discos de doze polegadas nos quais estão gravadas, pela Orquestra Filarmônica de Londres, sob a regência de Alceo Galliera três danças do Chapéu de Três Bicos, do compositor ibérico Manuel De Falla.

A história da música de O Chapéu de Três Bicos é curiosa. Quando da visita do Ballet Russe à Espanha, em 1917, seu diretor, o famoso Serguei Diaghileff, encomendou a Manuel De Falla um ballet inspirado na novela de Alarcón, El Sombrero de Tres Picos. Este mesmo assunto, que já havia sido usado por Hugo Wolf em sua ópera Der Corregidor, trata da história, provavelmente, verídica, de um moleiro e sua esposa, perseguida pelo governador, cujo distintivo oficial era o tricórnio.

Uma noite, quando De Falla, Diaghileff e Massine, técnico em coreografia do Ballet, visitavam recantos afastados da Andaluzia, em busca de atmosfera para o ballet, encontraram um cego que cantava uma melodia ao som de uma guitarra quebrada. Era uma melodia belíssima e os seus acordes chamaram de pronto a atenção de De Falla, cuja sensibilidade foi ferida pela canção. Era o tema procurado! Aquela canção, é, assim, aproveitada por De Falla e o ballet é, finalmente, levado à cena no Teatro Alhambra, de Londres, a 22 de julho de 1919.

Alceo Galliera
A suíte do concerto, extraída da partitura do ballet, consta de três danças. A primeira, intitulada Os Vizinhos, evoca a festa junto à casa do moleiro na véspera do dia de São João. A segunda, Dança do Moleiro, descreve com um pouco de melancolia, a natureza rude do moleiro. É uma farruca, tipicamente andaluza. A terceira e última, Dança Final, é uma “jota” brilhante, movimentada, para caracterizar a derrota do ousado conquistador.

Alceo Galliera, jovem regente italiano, à frente do famoso conjunto londrino, nos dá uma feliz interpretação desta movimentada partitura, sobretudo na parte final, caracterizada por intenso movimento e vibração.

No que diz respeito à gravação, propriamente dita, só se poderá dizer que está perfeita, porquanto está isenta de chiado ou imperfeições, como bolhas ou estalidos, provenientes da massa de má qualidade, dotada, assim de um som muito fiel.

Um álbum, portanto, que se pode recomendar aos apreciadores da música clássica.

Diário da Noite, 19/6/50

Na foto: Alexander Brailowsky é considerado um dos mais perfeitos intérpretes das páginas de Chopin. Mensalmente, o suplemento Victor programa regravações do grande mestre do teclado, não apenas na interpretação das partituras do imortal compositor polonês, senão também das obras de Ravel, Liszt, Weber, Albéniz, Beethoven, etc. Entretanto, é em suas interpretações de Chopin que se pode, através do disco, ter uma idéia da sua exuberante técnica e grande sensibilidade.

Diário da Noite, 12 de agosto de 1950

LANÇAMENTOS ANTECIPADOS

A Odeon colocou nas revendedoras, durante esta semana, dois discos cujos lançamentos estavam programados para meados do próximo mês. Aliás, a eles já fizemos referências, em notas anteriores. Trata-se das gravações do bolero Hipócrita e da canção francesa Clopin-Clopant, na voz de Gregorio Barrios; e do Baião, de Luiz Gonzaga, e do Moto Perpétuo, de sua autoria, na interpretação de Heriberto Muraro, em solo de piano, secundado de grande orquestra.

Com alusão ao disco de Gregorio Barrios temos a dizer que o festejado vocalista espanhol, que muitos julgam argentino ou, mesmo, mexicano, está convincente, embora a sua interpretação do bolero de Carlos Crespo não seja das melhores. Gregorio dá muita vazão à sua exuberante voz, dando-nos a impressão de que pretende, tal qual Gino Bechi, fazer exibicionismo. E isso compromete as interpretações.

A adaptação da composição de Bruno Coquatrix, feita pelo argentino Ben Molar, está excelente. Entretanto, pareceu-nos que não é a música ideal para a voz de Gregorio, que exige composições movimentadas.

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Ambas as gravações foram executadas nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro. Secunda o famoso bolerista o conjunto de Oswaldo Borba, aliás o responsável pelos arranjos, muito bem feitos, por sinal.

Com referência às gravações de Muraro, é sempre com satisfação que as examinamos. Em várias oportunidades analisamos os discos desse festejado pianista, compositor e regente argentino, há tempos radicado no Brasil. Ultimamente, como os apreciadores do disco devem ter observado, Muraro tem se dedicado ao estudo de grandes arranjos para piano e orquestra, de músicas populares, culminando, agora, com o Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Através dessa gravação pode-se ter uma idéia da evolução artística de Muraro, cada vez mais aprimorando a sua técnica. Dos seus dedos brotam notas com uma abundância de espantar e sempre de efeitos imprevistos e agradáveis. Gostamos muito do seu Baião semi-sinfônico. Já em Moto Perpétuo parece que Muraro sofreu acentuada influência do Tico-Tico no Fubá de Zequinha de Abreu, dando-nos flagrante impressão de um escandaloso plágio. Isso com referência à composição. Quanto à execução, é o Muraro de sempre.

O conjunto de Oswaldo Borba, enxertado de vários elementos, foi o responsável pelo acompanhamento da “grande orquestra”, a que faz referência a etiqueta. Como sempre, Osvaldo Borba brilhou, especialmente na face do Baião, onde há passagens da orquestra muito bonitas.


Na foto: Muraro teve o seu disco, no qual se achava gravado o Baião de Luiz Gonzaga, e o Moto Perpétuo, de sua própria autoria, lançado antecipadamente, pois estava programado para o suplemento de setembro próximo. Trata-se de duas gravações bastante interessantes, especialmente pela face do Baião, onde vamos encontrar um bonito arranjo para piano e orquestra e melhor execução do festejado pianista argentino.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 11 de agosto de 1950

SUCESSO DE VILLA-LOBOS

Em crônicas anteriores tivemos ocasião de nos referir ao sucesso que vêm alcançando as músicas de Villa-Lobos, quer nos Estados Unidos quer na Europa, onde muitas delas têm sido levadas à cera pelas mais renomadas orquestras e pelos mais categorizados artistas.

A opinião do crítico de discos de The New York Times, sobre a gravação dos trechos da Bachiana nº2, pela Janssen Symphony Orchestra, dirigida por Wernes Janssen, para a Capitol, foi igualmente aqui transcrita.

Agora, segundo notícias que nos chegam dos Estados Unidos, Bachiana nº5, em gravação de Bidú Sayão, está batendo todos os recordes de venda em discos avulsos de música clássica. Aliás, em recente concurso levado a efeito pela revista The Saturday Review of Literature entre os vinte críticos de discos mais categorizados, esse disco de Bidú Sayão, para a Columbia, obteve a quarta colocação, entre “os melhores discos gravados nestes vinte e cinco anos de gravação elétrica”.

Bidú Sayão e Villa-Lobos em 1958
O resultado do inédito pleito foi o seguinte: 1º - Don Giovani, de Mozart, gravado durante o festival musical de Glyndebourne, Inglaterra, há uns quinze anos – 5 votos; 2º - A Flauta Mágica, de Mozart, sob a direção de Thomaz Beecham – 4 votos; 3º - As Bodas de Figaro, de Mozart, também gravado durante o festival musical de Glyndebourne – 4 votos; 4º - Bachiana nº5, de Villa-Lobos, cantada por Bidú Sayão – 4 votos; 5º - Variações de Goldberg, de Bach, por Wanda Landowska – 4 votos.

Wanda Landowska
Observe-se que para evitar um desnecessário acúmulo de trabalho na contagem de votos, a referida publicação limitou as votações a cinco álbuns e a cinco discos avulsos.

Dado o sucesso alcançado nos Estados Unidos e nos outros países do mundo, anuncia-se que a Capitol americana está disposta a levar à cera outras partituras de Villa-Lobos, especialmente a série completa das famosas Bachianas do querido mestre brasileiro.

Villa-Lobos, como se vê, aos poucos, vai impondo o seu prestígio musical ao público dos mais cultos países do mundo.

Heitor Villa-Lobos
Na foto: Heitor Villa-Lobos, que há pouco teve o seu primeiro Concerto para piano e orquestra gravado na Suíça, vai, aos poucos, conquistando a admiração e o respeito das mais cultas platéias do mundo. À vista do sucesso que vem alcançando a gravação da sua Bachianas nº5, magnificamente gravada por Bidú Sayão, a Capitol americana pretende levar à cera a série completa dessas curiosas peças do prestigioso autor nacional.

Diário da Noite, 10 de agosto de 1950

PRELÚDIO E FUGA

Foi com grande satisfação que ouvimos, há pouco dias, em gravação executada pela Telefunken alemã, agora distribuída pela Supraphon, o Prelúdio e Fuga em Mi Bemol Maior, de Johann Sebastian Bach, em execução da Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a direção de Erich Kleiber.

Como se sabe, as Fugas de Bach foram, todas elas escritas originalmente para órgão. Todavia, há transcrições dessas partituras para grandes orquestras. A transcrição orquestral para a Filarmônica de Berlim foi feita por Arnaldo Schomberg. E o fez, diga-se de passagem, tal qual um mestre como ele saberia fazê-lo. Trata-se de uma gravação, em dois discos, que se pode recomendar sem qualquer receio, pois a grande e prestigiosa Filarmônica de Berlim, de antes da guerra, executa a imortal partitura do mestre germânico de forma soberbamente impressionante, demonstrando, assim, a segurança da regência do aplaudido Erich Kleiber.

A Supraphon nos oferece uma reimpressão dos discos da Telefunken alemã muito bem feita, merecendo, por isso, as melhores referências. Os amantes da música clássica não devem deixar de conhecê-la. Vale a pena ser ouvida e analisada. Os admiradores das gigantescas páginas de Bach, sobretudo, encontrarão nela uma das mais perfeitas execuções do conhecido Prelúdio e Fuga em Mi Bemol Maior, também identificado como o de Santana.


Erich Kleiber
A propósito da reimpressão das gravações da Telefunken alemã, cumpre lembrar que a Capitol nacional, ao inaugurar as suas modelares instalações, no Rio de Janeiro, nos prometeu que irá regravar uma porção de obras clássicas da antiga e prestigiosa gravadora germânica, como concertos, sinfonias, óperas, sonatas, etc., há muito tempo esgotadas e que são constantemente procuradas com avidez nas casas revendedoras.

Por outro lado, a Brunswick e a Polidor, que já reiniciaram suas atividades, além de gravações das páginas populares da Europa, nos têm mandado algumas gravações de obras clássicas, muitas das quais feitas há alguns anos, mas cuja perfeição é indiscutível.

Como se vê, os apreciadores da música européia e os admiradores das grandes obras estão de parabéns. É só aguardar um pouquinho e reservar algum numerário para gastar.

Casa Beethoven

Na foto: Carlos Gardel, o imortal cantor argentino, morto em circunstâncias tão trágicas, quando se achava no ápice da sua gloriosa carreira artística, tendo um mundo, ainda pela sua frente, no campo da arte, é homenageado, todos os meses pela etiqueta Odeon, que apresenta, em seus suplementos, regravações suas. Gardel, apesar de morto há tantos anos, continua sendo um artista do disco mundialmente apreciado.

Diário da Noite, 9 de agosto de 1950

MÚSICA SINFÔNICA

Enquanto não recebemos as novidades em música popular, em gravações ainda em prova, a serem lançadas em setembro próximo, estamos reservando algum espaço para apreciações sobre algumas peças clássicas.

Tivemos ocasião de ouvir e analisar a Sinfonia nº5, em Dó Menor, opus 67, de Beethoven, em gravação da Orquestra Filarmônica de Berlim, de antes da guerra, é bom frisar, sob a direção de Wilhelm Furtwängler, para a “His Master’s Voice”. Essa obra faz parte do álbum Victor nº DM-426, com cinco discos de 12 polegadas, para mudança automática.

A Sinfonia nº5, de Beethoven, uma das mais conhecidas das nove que o grande surdo compôs, teve a sua estréia a 22 de dezembro de 1808, no Teatro de Viena, mas, segundo o próprio Beethoven, foi esboçada por volta de 1800, tendo ocupado a sua atenção por muito tempo. Os retoques finais, contudo, foram feitos em 1808, em Heiligenstadt, retiro favorito de Beethoven, fora de Viena.

É ainda o próprio Beethoven quem esclarece o sentido dessa obra, descrevendo-a como a luta do indivíduo contra o Destino, narrando todas as esperanças e desesperos, até a vitória final. “Assim bate o destino à porta”, é a significação que ele dá às quatro primeiras notas do primeiro movimento. Vale a pena recordar que, durante a segunda guerra mundial, os Aliados usaram o início desse movimento como arma de guerra psicológica contra o Eixo, por corresponderem essas quatro notas à letra “v”, inicial da palavra “vitória”, em código Morse. Isso tornou a Sinfonia em Dó Menor ainda mais conhecida e popular, não só pelo rádio como por meio de novas gravações pelas orquestras inglesas e americanas.

Diário de S. Paulo, 18/6/50
Cumpre notar, entretanto, que a gravação objeto das nossas considerações é anterior à guerra. A idade, entretanto, não lhe diminui o valor, pela interpretação e pela qualidade do som.

Wilhelm Furtwängler
É uma das melhores contribuições do grande regente germânico para a fonografia, embora, por uma questão de gosto pessoal, se possa discordar do andamento dado aos dois primeiros movimentos, se o compararmos com o dado por Wilhelm Mengelberg, na gravação da Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, uma das mais recomendáveis segundo a opinião de vários críticos.

Os discos desse álbum são de fabricação inglesa, de excelente qualidade. Entretanto, as matrizes são de origem alemã.

Na foto: Dos mais recomendáveis o álbum Victor DM-230, onde vamos encontrar o Concerto nº1 em Ré Menor, de Paganini, com Yehudi Menuhin e a Orquestra Sinfônica de Paris, sob a direção de Pierre Monteux. O álbum em questão contém cinco discos de 12 polegadas, de magnífica sonoridade e ausentes de chiado.

Diário da Noite, 8 de agosto de 1950

NÃO É O MESMO

Apesar de havermos analisado todos os lançamentos do suplemento Odeon de julho último, um deles entretanto escapou-nos, tendo apenas tecido sobre ele ligeiras considerações. Trata-se do disco da nova orquestra de Artie Shaw, no qual vamos encontrar dois bons foxes: O Amor Chegou, de George Gershwin, e Não Posso Viver Sem Ti, de Cole Porter. Pelas assinaturas dos responsáveis pelas partituras, verificar-se-á que se trata de boas obras.

Fizemos questão de voltar a falar sobre esse disco, analisando-o, embora um pouco atrasados pelo simples fato de se tratar de um lançamento em primeira mão no Brasil, isto é, antes mesmo de ser editado nos Estados Unidos, tratando-se, portanto, de uma autêntica e absoluta primazia. De fato, enquanto a Odeon nacional, o mês passado, lançava no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, simultaneamente a aludida gravação, só agora que, nos Estados Unidos, as revistas e publicações especializadas a ela estão fazendo referência.

A gravação não está má. Infelizmente, porém, observamos que o irrequieto clarinetista já não é o mesmo Artie Shaw dos áureos tempos. Já não possui aquele timbre exuberantemente sonoro e a amplitude de causar admiração. A impressão que se tem, por estes “lados”, é de que Artie Shaw iniciou o seu declínio para o ocaso da sua brilhante carreira musical.

Artie Shaw
O novo conjunto que Artie nos apresenta não é dos piores. Bem ensaiadinho, homogêneo, possuindo elementos de reais méritos, especialmente o guitarrista Jimmy Raney, o pistonista D. Fagerquist e o sax-tenor Zoot Sims, cujos solos impressionam bem. Igualmente a seção de trombones convence.

Don Fagerquist
É bem provável que o novo conjunto venha reconquistar o prestígio que a antiga orquestra de Shaw desfrutava. Gostaríamos, entretanto, que o próprio Artie, nas futuras gravações, se apresente mais brilhante, mais claro em sonoridade e menos cansado.

Por se tratar de uma gravação da nova orquestra de Artie Shaw, o disco em questão merece ser conhecido, especialmente pelos antigos fãs do festejado clarinetista.

Na foto: Artie Shaw reapareceu nos suplementos de novidades da Odeon, através de uma gravação que foi lançada no Brasil antes mesmo de sair das prensas das gravadoras norte-americanas. Coube, assim, aos discófilos brasileiros, a primazia de conhecer a primeira gravação do novo conjunto de Artie antes que os norte-americanos. Uma página de Gershwin e outra de Cole Porter é o que a nova orquestra de Artie nos proporciona.