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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Diário da Noite, 11 de setembro de 1950

GRAVAÇÕES DE HENRY

Consoante tivemos ocasião de noticiar, Georges Henry e sua orquestra, composta de elementos pertencentes ao cast das Emissoras Associadas de São Paulo, tendo como figura principal o admirável William Fourneau, gravaram sob a responsabilidade da etiqueta Continental dois discos, em cujas faces vamos encontrar os seguintes números: Holiday For Strings, de David Rose, A Dança do Sabre, de Khachaturian, Que Nem Jiló, de Luiz Gonzaga, e Trem-ó-lá-lá, sendo que os dois últimos números são, como se sabe, movimentados baiões.

Gostamos imensamente do disco, que encerra as gravações de Holiday For Strings e de A Dança do Sabre. Não apenas pela interpretação do conjunto e da performance do assovio de William Fourneau, senão também pelo som da gravação, que nos surpreendeu. Antes de Henry executar as gravações em apreço, tivemos ocasião de dizer-lhe das nossas dúvidas quanto à perfeição do som. Jamais os discos que iria gravar poderiam ser iguais ao executado no Rio de Janeiro, no qual gravou Hora Staccato. É que, como lhe explicamos na ocasião, apesar das reformas feitas pela Continental no seu estúdio, em virtude da sua inconveniente localização, entre indústrias de cofres, arquivos e outras coisas, com a sua maquinaria complicada, seria impossível conseguir um disco de alta fidelidade, apesar de as gravações serem feitas após meia-noite. Talvez gravações simples é possível que saiam desse estúdio 100% perfeitas, como tem acontecido com as de artistas secundados apenas de regional, com as de solistas de harmônica, de bandolim, cavaquinho e com as duplas caipiras. Entretanto, com orquestra, a questão se complica, tecnicamente.

Georges Henry, Diário de S. Paulo, 16/7/50
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Mas , como dissemos, o disco objeto das nossas considerações nos surpreendeu sobretudo pelo seu bom som. É verdade, conforme soubemos depois, artistas e técnicos “apanharam” durante quatro horas seguidas para acertar. Mas acertaram. E o resultado aí está, o disco em questão, com um som quase perfeito.

Quanto ao segundo disco, já não podemos dizer o mesmo. A sonoridade está excessivamente metálica e a voz de William Fourneau, cantando os baiões, distorcida, mais fina que o normal. Talvez as duas gravações constantes deste disco, foram feitas por último quando todos já estavam esgotados, especialmente o técnico.

Chuva de Astros - Diário de S. Paulo, 5/6/50
Com alusão à parte artística, só temos palavras de estímulo. Todos conhecem o quilate da arte de William Fourneau, de modo que inútil se torna dizer que o seu assovio, em Holiday For Strings e em A Dança do Sabre, esteve seguríssimo e a sua vocalização nos demais números, convincente. Bastante curioso aquele seu malabarismo vocal, nos últimos sulcos de Holiday For Strings. Trata-se, realmente, de um festival de cordas... vocais...

Georges Henry, como sempre, muito seguro na regência e no sopro do seu endiabrado pistão. Todas as seções do conjunto se portaram de forma elogiável, primando pela homogeneidade. Bastante interessante aquele rápido solo de piano, em Que Nem Jiló, de efeito imprevisto e curioso.

É uma pena que o som de um dos discos, como dissemos, não esteja perfeito. Mas isto é coisa que se notará apenas ouvindo o disco como nós, com espírito analítico. Afora isso, tudo OK e as gravações merecem, assim, as atenções do público, especialmente pela originalidade das interpretações.

Na foto: Georges Henry, de cujas gravações falamos em nossa crônica de hoje, vem de ser contratado para dirigir a parte musical das Emissoras Associadas. A capacidade artística do moço regente gaulês o credencia para ocupar cargo de tamanha responsabilidade que, a par de aplausos e alegrias, também traz dissabores. Fazemos votos, entretanto, para que a sua missão no espinhoso cargo seja coroada de pleno êxito.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Diário da Noite, 2 de setembro de 1950

TÓPICOS E INFORMAÇÕES

Dentro de alguns dias começarão a aparecer, nas vitrines das revendedoras os discos da nova etiqueta “Toda América”. Como se sabe, “Toda América” é uma nova marca subsidiária da Continental, isto é, os seus discos serão prensados e distribuídos pela organização Byington. – A propósito da nova etiqueta, apresentará ela uma inovação em sua etiqueta: em seu selo, além do número correspondente à gravação, o título da música e o nome do intérprete ou da orquestra, terá ainda a fotografia do artista. Se se tratar de um conjunto, terá a foto do chefe. Há casos em que a etiqueta não apresentará foto alguma, mas o globo terrestre demonstrando os contornos de “Toda América”. – Dentro de poucos dias, a Capitol entregará às revendedoras o primeiro disco de Stellinha Egg. Trata-se de uma maracatu estilizado, de autoria de Geraldo Medeiros, que recebeu o título de Bu-qui-ti-bum, cujo arranjo é de autoria de Lyrio Panicalli. – Jorge Veiga, com a sua estranha e original voz, vem de gravar para a Continental uma produção de Ary Barroso e Amâncio[1]. Trata-se do samba Carne Seca Com Tutu. – A Victor já colocou n praça a última composição da dupla Alberto Rossi e Lazzoli[2], interpretada por Carlos Galhardo, intitulada O Resto é Silêncio, uma inspirada valsa. – O primeiro disco da “Toda América” a ser colocado nas revendedoras é gravado por Nilo Sérgio, que pertenceu ao cast da Continental. Speak Low, beguine de Kurt Weill e Ogden Nash e aquele célebre Cavaleiros do Céu foi o que Nilo gravou neste seu primeiro disco para a novel etiqueta. – A versão da canção italiana que celebrizou Gino Bechi, então conhecido apenas por um número reduzido de pessoas, Estrada do Bosque, de C. A. Bixio, foi gravada por Francisco Alves para a Odeon. Já ouvimos as provas e ficamos otimamente impressionados. Em próximas notas analisaremos o disco.

Elizeth Cardoso
– Vários artistas da Continental passaram-se para a nova etiqueta “Toda América”: Nilo Sérgio, Ademilde Fonseca, a orquestra de Francisco Sergi foram os primeiros. – Em compensação, o novo selo nos vai apresentar valores novos, como Araci Costa, Elizeth Cardoso, Marchelli,[3] Dupla Zoológica, Os Boêmios, Helena de Lima e outros. A garota, ao que se diz, de maior prestígio na nova marca é Elizeth Cardoso, que é dona de um timbre vocal interessantíssimo. Gravou ela, Complexo, samba de Wilson Batista e Magno de Oliveira, e Canção de Amor, de Elano de Paula[4] e Chocolate. – Dentro de alguns dias a Continental colocará nas revendedoras as recentes gravações do conjunto de Georges Henry, com William Fourneau. Trata-se, como já noticiamos, das seguintes gravações: Holiday for Strings, Dança do Sabre, Que Nem Jiló e Trem-o-lá-lá. William Fourneau, com o seu assovio e os seus malabarismos vocais, tem papel de destaque nas aludidas gravações, que, aliás, serão alvo de nossos comentários, posto já havermos ouvido as provas correspondentes.

E é só, por hora.



Na foto: Fernando Torres, um dos mais categorizados boleristas da constelação Odeon, está presente no suplemento do corrente mês da famosa etiqueta. Quiereme... Pero Quiereme, bolero-mambo de Alfredo Parra, que Chucho Martinez já gravou, já faz algum tempo, para a Continental; e Amorcito Corazón, bolero de Manuel Esperon e Pedro de Urdemalas, também já gravado por Chucho Martinez para a etiqueta dos três sininhos, são os números que o jovem cantor nos oferecerá, aliás muito bem vocalizados e interpretados de maneira superior, condizente com o seu renome.


[1] Deve ser Amâncio Cardoso, mas há equívoco, porque o samba Carne Seca com Tutu é parceria de Ary com Vilma de Azevedo.
[2] Na verdade uma pessoa só, o maestro Alberto Rossi Lazzoli.
[3] “Marchelki” no original. Suponho que J. refira-se a Vicente Marchelli.
[4] Irmão mais velho do grande Chico Anysio.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 24 de agosto de 1950

GRAVAÇÃO CURIOSA

A Capitol lançou, já faz um mês, um disco de Les Paul, em solo de guitarra elétrica, no qual ele gravou as melodias Lover e Brasil. Trata-se de um disco curioso. Todos os que o ouvem ficam intrigados, porquanto a etiqueta faz referência apenas a Les Paul e, entretanto, ele parece estar sendo acompanhado por numeroso conjunto de ritmo, no qual julga-se existirem instrumentos ainda desconhecidos do grande público. Entretanto, não há conjunto de ritmo algum acompanhando o solista e, muito menos instrumentos bizarros e desconhecidos. O que houve, na realidade, foi uma bem feita e inteligente fono-montagem. Trata-se, evidentemente, de uma proeza não só do solista de guitarra elétrica mas, também dos técnicos da Capitol. Foi mais ou menos assim que ele executou a aludida gravação. Em primeiro lugar, combinou com os técnicos em realizar seis diferentes gravações, isto é, levaria à cera seis partes diferentes da música. Depois colocando as seis gravações, em pick-up de absoluta precisão, rodadas simultaneamente, levaria as parte tocadas nas seis gravações diferentes, para um só disco. Assim, Les Paul escolheu a melodia Lover, por exemplo, e gravou num disco toda a sua melodia. Num outro disco a harmonia, ou o acompanhamento. Num terceiro, executou variações sobre o tema musical. No quarto, variações sobre a harmonia. No quinto, “uma baixaria”, imitando um contrabaixo. E, finalmente, no sexto disco, em sobreagudo, algumas variações imitando violinos. Gravou, assim, seis discos completamente diferentes. Se ouvíssemos cada um deles, em separado, dificilmente reconheceríamos a música, apesar de se tratar de Lover, uma das mais populares melodias em todo o mundo.

Les Paul
Concluídas as seis gravações, foram elas, como dissemos, levadas ao tocador de precisão, e, rodadas simultaneamente, gravadas numa só cera. E o resultado foi a curiosa gravação que vimos de mencionar. Se bem que este caso, o de se gravar seis discos para, depois, elaborar um, figurando o artista como solista e acompanhantes, seja único, a questão não se reveste de novidade, porquanto numerosos artistas têm feito o mesmo. Enrico Caruso, por exemplo, há tempos, gravou trechos de óperas cantando em dueto com ele mesmo. Beniamino Gigli fez o mesmo. E Jascha Heifetz foi ao extremo de gravar um concerto para dois violinos, ele mesmo executando as partituras de ambos os solistas. Tudo com o mesmo recurso de que lançou mão Les Paul. Dissemos que o seu caso é único porque, realmente, foi ele o primeiro a interpretar seis partes diferentes, isto é, fazendo o papel de solista e do conjunto acompanhante. A propósito, William Fourneau, ao gravar, há poucos dias, para a Continental, com a orquestra de Georges Henry, o fragmento da suíte de Katchaturian A Dança do Sabre, em solo de assovio, desejou, lançando mão do mesmo processo, realizar um dueto e um contra-solo de assovio com ele mesmo. Entretanto, faltaram recursos técnicos e a proeza não pôde ser levada a efeito, o que foi pena, porquanto se fosse feita, a gravação seria bem mais valorizada e seria uma tácita demonstração da capacidade artística de um moço ainda no início de sua carreira. O disco em apreço, portanto, vale pela curiosidade que apresenta. De fato, Les Paul conseguiu efeitos inéditos e absolutos, jamais ouvidos em qualquer outra gravação.


Na foto: Na lista avançada de novidades da Continental, a serem lançadas em setembro próximo, está programado um disco desse homogêneo conjunto vocal paulista que são os Vagalumes do Luar. No aludido disco vamos encontrar o baião de Juraci Rago e Mário Vieira, O Baião Chegou e a toada de Birimbau e Manézinho Araújo, O Pió da Saudade. O festejado quinteto já gravou, também, para a etiqueta dos três sininhos, o samba de Mário Vieira e Orlando Barros (Tavinho), Maluco por Samba.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 2 de agosto de 1950

NOTAS E NOVIDADES

Eis aqui mais algumas notinhas para todos aqueles que gostam de discos:

Georges Henry e sua orquestra, com William Fourneau, assoviando e tocando harmônica, conforme estavam programados, gravaram, quinta-feira última, nos estúdios da Continental, nesta Capital, dois discos, nos quais vamos encontrar A Dança do Sabre, da suíte de Khachaturian,em arranjo especial para assovio e orquestra; Holiday for Strings, Baião de Dois e Que Nem Jiló. Esses discos vão figurar no próximo suplemento de novidades da etiqueta dos três sininhos. – A Victor já está colocando nas revendedoras as primeiras gravações do tenor Mario Lanza, o novo Caruso do século XX, segundo a opinião de Serge Koussevitzky, seu descobridor e ex-regente da Orquestra Sinfônica de Boston. – Por falar em Mario Lanza, dentro de algumas semanas ele aparecerá na tela de um dos nossos cinemas ao lado de Kathryn Grayson, José Iturbi e outros, cantando trechos de óperas e belas canções napolitanas. – A propósito desse filme, junto com ele certamente chegarão as gravações de Mario Lanza, que é artista exclusivo da Victor, que já se antecipou, lançando à praça as gravações do famoso tenor, antes da chegada do filme. – Apesar de as gravações de Jorge Fernandes não possuírem valor comercial e tão somente artístico, a Odeon vai colocar nas revendedoras um disco do admirável folclorista patrício: Engenhos de Minha Terra, canção de Waldemar de Oliveira e Ascenço Ferreira; e Vaquejada, de José Carlos Burle e Gilberto Fontes. São dois “lados” que merecem lugar de destaque em qualquer discoteca.

Jorge Fernandes
– A Continental prossegue em seus lançamentos de gravações feitas para a Mercury americana. Dois bons discos de Frankie Lane, num dos quais vamos encontrar a famosa melodia de Victor Herbert Kiss Me Again, já foram prensados e entregues às revendedoras. – Luciano Tajoli, o cantor de músicas românticas da Itália, que perdeu um dos braços na última guerra, também está presente outra vez no suplemento Odeon para este mês, cantando, com sua bonita voz, Serenata Serena e Passa Uma Hora, duas belas páginas de Bonagura e Natili, respectivamente. – Peter Kreuder, o popular pianista alemão que conquistou tantos admiradores em São Paulo, quando aqui esteve, está tendo as suas gravações lançadas este mês pela Victor. Nada menos de cinco discos de Kreuder estão programados. – Michel Allard, o chansonier que a França nos mandou e que nos visita, já realizou duas gravações para a Continental. A primeira foi lançada há pouco. A segunda saiu agora. Prelude e Ma Chambre Blue são as canções que Michel Allard canta neste segundo disco.

Diário da Noite, 8/7/50
– Com a vinda a São Paulo de Império Argentina, para cantar ao microfone das Emissoras Associadas, a Odeon programou, para este mês, um dos mais belos discos da famosa intérprete da canção espanhola. Cuando Me Columpias Tu e Zumba de San Fernando são as páginas que Império canta, secundada por grande orquestra, regida por Guillermo Cases. – Primeiras gravações de Lúcio Alves para a Continental: Amargura e Tudo Acabou. – Os admiradores da orquestra de cordas de George Melachrino devem-se preparar para a verdadeira chuva de gravações do famoso conjunto que a Victor preparou para este mês. Doze discos de Melachrino e sua orquestra é o que teremos, o que vale dizer vinte e quatro interpretações do apreciado conjunto. – A Continental anuncia, para dentro de poucas semanas, gravações da querida intérprete argentina Mercedes Simone, cuja ausência dos suplementos de novidades das diversas firmas gravadoras já se fazia sentir de há muito. – No primeiro suplemento nacional da Capitol figuram vários artistas nacionais: Dick Farney, Carolina Cardoso de Menezes, Oscarito, Os Cariocas, Heleninha Costa e Lyrio Panicalli.

Casa Nelson & Nelson

Henry e William Fourneau
E é só, por hoje.


Na foto: O ponto alto do conjunto orquestral de Georges Henry, composto, indubitavelmente, de elementos de real valor, conscientes do seu valor artístico, reside, sem dúvida alguma, em William Fourneau. Com efeito, o simpático gorducho, além de assoviar admiravelmente, toca harmônica, dança, canta em diversos idiomas e nos mais variados ritmos e, o que é mais difícil ainda, é humorista... Gravou, na Continental, quinta-feira última, juntamente com o conjunto de Henry, A Dança do Sabre, Holiday For Strings, Baião de Dois e Que Nem Jiló.

sábado, 30 de novembro de 2013

Diário da Noite, 21 de Julho de 1950

ADMIRÁVEL PISTONISTA

Não faz muito, analisamos neste canto de coluna uma gravação desse admirável pistonista e chefe de orquestra, que é Georges Henry, em que ele e William Fourneau, em solo de assovio, secundados por magnífica orquestra, interpretam Hora Staccato, página musical do compositor romeno Dinicu, baseada, como se sabe, numa cena folclórica do seu país. Dissemos, então, da perfeição da gravação, executada sob a responsabilidade do selo Continental e que, apesar de nacional, estava, artística e tecnicamente, superior à em que o conjunto de Freddy Martin, com Gene Conklin ao assovio, intervém.

No disco objeto das nossas anotações de hoje, apesar de conter a mesma página musical de Dinicu, que por sinal, já foi gravada por um sem número de artistas, não intervém nenhum assoviador, senão um dos maiores pistonistas da atualidade: Rafael Mendez. Dono de uma técnica impressionante e superior, além de um sopro seguríssimo e cristalino, sem defeitos de respiração e de um fôlego espantoso, Rafael Mendez nos brinda com uma Hora Staccato positivamente espetacular. Magnificamente secundado pelo seu próprio conjunto, Rafael Mendez chega até a abusar do instrumento, com floreios que talvez só ele possa conseguir.

Rafael Mendez
Para completar o disco, foi gravada, na face oposta, a partitura de Rimsky Korsakov O Vôo do Besouro, que também tem sido levado ao disco por uma porção de virtuoses. Aqui, Rafael Mendez se utiliza da surdina em seu endiabrado pistão para executar a página do imortal compositor russo. O arranjo, naturalmente feito pelo próprio chefe da orquestra, embora a etiqueta Odeon a ele não faça referência, obedeceu aos cânones clássicos, dando-nos a impressão de estarmos numa sala de espetáculos ouvindo um concerto de pistão, o que, em última análise, outra coisa não deixa de nos proporcionar esse precioso disco.

Valor artístico e comercial não falta a essa gravação.

Na foto: Nelson Novaes, que já gravou vários discos de sucesso na Continental, está programado para gravar, ainda este mês, para a etiqueta dos três sininhos, Sozinho Noite Afora, versão do fox italiano Soli, Soli nella Note, e Um Amor Igual ao Nosso, canção da famosa dupla de compositores franceses Borel e Clerc.[1] A versão brasileira de ambas as partituras foi feita pelo próprio Nelson Novaes.


[1] Como já se viu na crônica do dia 10 de julho, Borel-Clerc eram uma pessoa só, o compositor Charles Borel-Clerc.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Diário da Noite, 18 de Julho de 1950

VIOLINO

Jascha Heifetz, o grande violinista romeno[1] que a platéia paulista já teve ocasião de aplaudir, numa temporada que realizou no Teatro Municipal de São Paulo, considerado, por abalizados críticos musicais de todo o mundo, senão o maior, um dos mais perfeitos violinistas de todos os tempos, gravou, para a Victor, já faz algum tempo, Sapateado, de Sarasate, e, na face oposta do disco, duas singelas páginas: Murmúrios do Mar, de Castelnuovo e Tadesco, e o Vôo do Besouro, de Rimsky Korsakov. As três pequenas jóias da música universal, no disco que temos em mão, são transcrições do original, para violino, feitas pelo próprio Heifetz.

Enquanto que em Murmúrios do Mar a execução, sempre impecável, do festejado virtuose é mais lenta e suave, em o Vôo do Besouro, página muito conhecida, em conseqüência de um sem número de gravações feitas por inumeráveis artistas, conjuntos e virtuoses, Heifetz movimenta mais o arco e os seus impressionantemente ágeis dedos, dando margem aos ouvintes admirar mais de perto a sua técnica superior.

Pablo de Sarasate
No lado em que se acha gravado o Sapateado, de Sarasate, Heifetz, ao que parece, empregou todo o seu poder interpretativo para brindar aos seus admiradores, que se contam às centenas em todos os países do mundo, com uma gravação digna do seu renome. Muito curioso os efeitos dos seus famosos pizzicatos.

Merece observação especial o acompanhamento ao piano, executado por Emanuel Bay. Discreto, mas seguro, límpido e com personalidade. Emanuel Bay, sem dúvida alguma, além de um excelente acompanhador deverá ser um magnífico solista, do que dá mostras, principalmente na face em que está gravado o Vôo do Besouro, onde sola, por momentos, de forma admirável.

Jascha Heifetz
O disco é de responsabilidade da etiqueta Victor, selo vermelho, importado. Não é novo, evidentemente, e já deve haver, até, edições nacionais. Todavia, só agora essa preciosa gravação é que nos chegou às mãos.

Trata-se, assim, de um disco que se precisa e deve recomendar aos amantes da boa música, especialmente aos que apreciam solos de piano.

Na foto: Após nos proporcionar uma notável Hora Staccato, com a orquestra de Georges Henry, tendo como solista de assovio William Fourneau, a Continental nos vai oferecer mais dois magníficos números pelo conjunto do aplaudido band leader gaulês: Holiday for Strings, de David Rose e a Dança do Sabre, um retalho de conhecida de Khachaturian. William Fourneau, o gorducho que todos aprendemos a admirar, estará em ação com o seu notável assovio. Aliás, essa gravação vai ser executada, na próxima quinta-feira, às 22 horas, nos estúdios de São Paulo da Continental. Se for possível, lá estaremos para assistir.


[1] Na verdade ele nasceu na Lituânia.

Diário da Noite, 15/2/50 - Clique para ver em alta resolução

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Diário da Noite, 03 de Junho de 1950

ASSOVIO E PISTÃO

Tivemos ocasião, em nota anterior, de nos referir à gravação recentemente levada a efeito, por Georges Henry e sua orquestra, nos estúdios da Continental, desse clássico já tão popularizado Hora Staccatto. Recebemos, dias depois, um punhado de cartaz indagando onde essa gravação poderia ser encontrada. E aqui vai a explicação: poderá ser encontrada em qualquer casa revendedora, mas lá para meados do corrente mês, pois o disco... lançado. Faz parte do suplemento de julho da Continental e a nossa análise foi feita pela prova, que nos foi gentilmente cedida pelo Hernani Dantas, diretor artístico em São Paulo, da etiqueta dos três sininhos. Trata-se, realmente, de uma gravação magnificamente executada, técnica e artisticamente, sendo de observar-se o magnífico solo de assovio de William Fourneau, elemento do conjunto, que é mais límpido e seguro do que o de Gene Conklin, da orquestra de Freddy Martin, que executou a mesma Hora Staccatto, para a Victor. Digno de nota ainda é o pistão de Georges Henry, irreverente, claro e abundante em notas pitorescas. Aquele final, em que Fourneau e Georges disputam a primazia de atingir as notas mais altas da escala é simplesmente alucinante.

Diário da Noite, 23/5/50
Fizemos questão de voltar à análise dessa gravação, deveras das mais interessantes ultimamente apresentadas pela Continental, pelo fato de o referido conjunto se encontrar em São Paulo e estrear hoje na Cidade do Rádio, ao microfone da Tupi. Provavelmente Georges Henry executará, como o fez na temporada anterior, Hora Staccatto, e, assim, o público ouvinte poderá observar a execução da orquestra e as interpretações de William Fourneau e do frenético regente gaulês. Conseqüentemente, terão idéia do valor artístico da gravação objeto das nossas considerações.

Henry (à esq.) e Fourneau (no centro) - Diário da Noite, 3/6/50
Na foto: Georges Henry, o irrequieto band leader francês, cuja estréia é ansiosamente aguardada para hoje, na Cidade do Rádio.

Diário da Noite, 01 de Junho de 1950

O TROVADOR DO CARIBE

Andaram bem as Emissoras Associadas em trazer a São Paulo esse autêntico cartaz internacional que é Fernando Albuerne, “el trovador del Caribe”. Já tivemos ocasião de apreciar, neste mesmo cantinho de coluna, várias gravações do magnífico intérprete das melodias astecas. É, sem dúvida nenhuma, um dos grandes cartazes do disco popular, obtendo suas gravações altos índices de venda.

Os fãs de Fernando Albuerne, em São Paulo, são incontáveis. E já que as Emissoras Associadas, ainda esta semana, vão apresentá-lo aos rádio-ouvintes paulistas, seria interessante traçar aqui o seu perfil artístico.

Nasceu “el trovador del Caribe” em Cuba a 28 de outubro de 1920. Começou cantando aos 21 anos, na Radio Gadena Suaritos, NB-1, de Havana, onde está preso sob contrato até hoje. Já cantou em todas as capitais da América Latina e fez também uma temporada na Columbia Broadcasting System, de Nova York, em 1944. É solteiro e proprietário de uma fábrica de sabão em Havana. Vem de fazer uma temporada na Radio Globo e na boate Acapulco, do Rio de Janeiro. É artista exclusivo da constelação Odeon, de cuja famosa equipe de boleristas, juntamente com Gregorio Barrios, é dos primeiros.

Casa Beethoven

Fernando Albuerne e a partitura do sucesso
"Hipócrita", de Carlos Crespo
Vários são os discos gravados por Fernando Albuerne: Dices que Tengo Celos, No, no, no, Tú, Donde Estás?, Ay de Mi, Pecado e Cariñito. Gravou, recentemente, nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro, Hipócrita, Amor y Más Amor e a versão latina de Cavaleiros do Céu: Ginetes em el Cielo.

Os amantes do disco estão, portanto, de parabéns, pois além de el trovador del Caribe, as Associadas anunciam a vinda de Georges Henry, cujo recente sucesso para a Continental, Tu Sais, analisaremos em próxima crônica; Tito Schipa, Zé Gonzaga e sua endiabrada sanfona e outros, estando a estréia de Oscar Carboni, “o rouxinol da Itália”, sendo aguardada com viva ansiedade pelo público de São Paulo, especialmente pela colossal colônia italiana.

Diário da Noite, 1/6/50 - Clique para ver em alta resolução
Na foto: Fernando Albuerne faz parte da equipe de boleristas da etiqueta Odeon. Com Gregorio Barrios, encabeça a lista dos melhores intérpretes das melodias astecas. Como um presente aos seus fãs de São Paulo, as Emissoras Associadas apresentá-lo-ão, ainda esta semana, ao seu microfone famoso.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Diário da Noite, 11 de Maio de 1950

ÊXITO GARANTIDO

É sempre com reservas que recebemos os célebres “arranjos modernos” da música erudita. É que nem sempre os “arranjadores” são felizes nas adaptações e o resultado é que o ouvinte trava conhecimento com acordes musicais dos grandes mestres, completamente mutilados, dando-lhe falsa noção do original, quase sempre perfeito, melodioso e belo. Isso não quer dizer, porém, que todas as adaptações sejam más. Há, até, as que, por assim dizer, melhoram o original, popularizando-o, isto é, despertando no público o desejo de conhecer a música clássica, tal qual fora escrita pelo autor.

Hora Staccato, a conhecida partitura escrita originalmente para violino é uma das músicas ultimamente mais visadas pelos arranjadores modernos e pelos intérpretes populares. Na versão clássica, foi gravada pela quase totalidade dos virtuoses, sendo a mais famosa a executada por Jascha Heifetz para a Victor, havendo também uma transcrição para orquestra sinfônica que foi gravada, ainda para a etiqueta Victor, pela Boston Pops, sob a regência famosa de Arthur Fiedler. A versão popular tem sido gravada por um sem número de orquestras e conjuntos. As mais famosas, todavia, são a gravada por Harry James, em solo de pistão, muito conhecida graças ao filme Escola de Sereias, do qual participa, e a executada por Benny Goodman, em solo de clarineta.

Freddy Martin
Freddy Martin, todavia, apanhou a partitura original e ainda que pareça incrível, adaptou-a para solo de assovio, acompanhado de orquestra. Essa gravação, que é Victor, foi uma coqueluche em todo o mundo. E com razão, porquanto o solista, Gene Conklin, com o seu assovio, nos dá uma Hora Staccato curiosa.

A Continental, agora, vai lançar a mesma Hora Staccato na versão da orquestra francesa de Georges Henry, tendo por assoviador William Fourneau. Será um sucesso esse disco. Georges Henry e William Fourneau estão verdadeiramente espetaculares. Aquele no pistão e este no assovio. A versão não é a mesma de Freddy Martin, mas do chefe do conjunto francês. E é melhor. Especialmente o assovio de Fourneau, mais claro e seguro. Observe-se nos últimos sulcos da gravação a disputa entre o assovio e o pistão. Além de humorístico, demonstra o impressionante fôlego dos dois solistas. Note-se, ainda, o acompanhamento executado pelo conjunto, que é perfeito, não sendo dada uma nota fora, apesar das passagens rápidas todas elas se entrosando de forma perfeita com o solista assoviador. A gravação Continental, por sua vez, é magnífica, captando com limpidez o solo de Fourneau e quase sem chiado, frisando-se que foi feita nos seus estúdios do Rio de Janeiro – nacional, portanto.

Êxito garantido está reservado a esse disco.

Na foto: Fazia tempo que a vozinha curiosa de Ademilde Fonseca se ausentara do disco. Quem não se lembra do seu famoso Tico-Tico no Fubá, ainda hoje tão procurado e disputado? Pois Ademilde estará de volta, dentro em pouco, ainda com dois bamboleantes chorinhos: Brasileirinho e Teco-Teco. Ouvimos as provas desse disco e pudemos verificar que a querida vocalista retorna bastante segura, e magnificamente secundada pelo regional de Altamiro Carrilho, cantando os chorinhos como só ela sabe.

Brasileirinho e Teco-Teco foram gravadas há poucos dias e o disco sairá em princípios de julho, ao que nos informou o Hernani Dantas, da Continental.