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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 21 de agosto de 1950

NOTAS

Colhidas especialmente para os leitores deste cantinho de coluna, aqui estão algumas notas relacionadas com o mundo dos discos:

Assoalha-se nos meios artísticos que duas novas empresas gravadoras vão surgir em São Paulo. Adianta-se mesmo que, uma delas, será de iniciativa dos irmãos Vitale, antigos editores musicais e conhecedores do metiér. Com alusão à outra, nada transpira, parecendo que os seus organizadores conservam sigilo que, afinal, é o segredo do sucesso. – Ao que tudo indica, entretanto, trata-se de apenas duas novas marcas e não de duas novas fábricas, a exemplo dos Estados Unidos, onde existe quase uma centena de marcas para um número reduzido de fábricas. – Conforme noticiamos, com a presença de numerosos convidados, a Odeon inaugurou, quinta-feira última, solenemente, as instalações de sua fábrica no município vizinho de São Bernardo do Campo. Em palestra com mentores da gravadora, encarecemos a necessidade da montagem de um estúdio em São Paulo, a fim de evitar viagens desnecessárias dos artistas de São Paulo ao Rio quando têm que gravar. Tivemos, então, a grata notícia: uma das próximas iniciativas da etiqueta vai ser precisamente a montagem de um estúdio moderno, de grandes proporções. Isso, adiantaram-nos, será breve, muito mais breve do que se poderá imaginar. O local será cientificamente escolhido, isto é, distante de ruídos e vibrações, sendo bem provável que a escolha recaia ali mesmo, em São Bernardo do Campo.

Vaughn Monroe
– A mais interessante interpretação da melodia de Lange, Heath e Glickman, do filme Audácia dos Fortes, intitulada Mule Train, vem de ser colocada, em gravação Victor, nas revendedoras. O intérprete outro não é senão o apreciado Vaughn Monroe, secundado pela sua própria orquestra. – A Continental, como se sabe, já iniciou a distribuição, através da responsabilidade do seu selo, as gravações da Mercury americana. Entretanto, ao que soubemos, não só a Mercury terá as suas melhores gravações editadas no Brasil, senão também várias outras etiquetas dos Estados Unidos, como a Celebrity, Discovery e Aladin. O melhor dos catálogos dessas etiquetas vai ser editado no Brasil pela “Simar”. – Causou a mais lisonjeira das impressões a homenagem da Odeon à memória de Carlos Gomes, fazendo distribuir a todos os que compareceram à inauguração de sua fábrica uma gravação da Sinfonia de O Guarani, num arranjo para piano e orquestra de Francisco Mignone, tendo como solista Heriberto Muraro.

Palmeira & Luizinho
– Anunciam despachos de Nova York que Benny Goodman acaba de rescindir contrato com a Capitol, voltando para a Columbia. Adianta-se que o famoso clarinetista e band leader não estava satisfeito com o selo da Sunset & Vine, porque ultimamente, a empresa, a exemplo do que vem fazendo com Woody Herman, há mais de seis meses que não incluía uma gravação sua nos suplementos. – A Victor que, não faz muito, lançou uma gravação da orquestra de Tommy Dorsey, interpretando um arranjo moderno do segundo movimento da 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, a Patética, lançou esta semana uma gravação da notável orquestra de Freddy Martin com um arranjo sobre o mesmo tema. Ambas as gravações, pelos magníficos arranjos, merecem ser ouvidas. – A Star, da qual tão pouco ouvimos falar, vai inaugurar, ainda este mês, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, a sua nova fábrica. – Está sendo muito procurada, pelos amantes do gênero, a gravação dos violeiros Palmeira & Luizinho, feita para a Continental, intitulada Paraná do Norte.

E por enquanto é só.

Na foto: Há muito que Wilson Roberto aguardava uma oportunidade para gravar. A Odeon deu-lhe a chance, lançando-o com duas boas composições que fazem parte do disco que está sendo colocado nas revendedoras e que está incluído no suplemento do corrente mês. São elas: Brasil Romântico, samba de Lauro Muller e Hubaldo Silva, e a versão brasileira do mambo de Bob Capo Amor e Mais Amor, feita por Haroldo Barbosa. É de augurar-se para o jovem cantor um grande sucesso com esta sua gravação de estréia.

sábado, 30 de novembro de 2013

Diário da Noite, 21 de Julho de 1950

ADMIRÁVEL PISTONISTA

Não faz muito, analisamos neste canto de coluna uma gravação desse admirável pistonista e chefe de orquestra, que é Georges Henry, em que ele e William Fourneau, em solo de assovio, secundados por magnífica orquestra, interpretam Hora Staccato, página musical do compositor romeno Dinicu, baseada, como se sabe, numa cena folclórica do seu país. Dissemos, então, da perfeição da gravação, executada sob a responsabilidade do selo Continental e que, apesar de nacional, estava, artística e tecnicamente, superior à em que o conjunto de Freddy Martin, com Gene Conklin ao assovio, intervém.

No disco objeto das nossas anotações de hoje, apesar de conter a mesma página musical de Dinicu, que por sinal, já foi gravada por um sem número de artistas, não intervém nenhum assoviador, senão um dos maiores pistonistas da atualidade: Rafael Mendez. Dono de uma técnica impressionante e superior, além de um sopro seguríssimo e cristalino, sem defeitos de respiração e de um fôlego espantoso, Rafael Mendez nos brinda com uma Hora Staccato positivamente espetacular. Magnificamente secundado pelo seu próprio conjunto, Rafael Mendez chega até a abusar do instrumento, com floreios que talvez só ele possa conseguir.

Rafael Mendez
Para completar o disco, foi gravada, na face oposta, a partitura de Rimsky Korsakov O Vôo do Besouro, que também tem sido levado ao disco por uma porção de virtuoses. Aqui, Rafael Mendez se utiliza da surdina em seu endiabrado pistão para executar a página do imortal compositor russo. O arranjo, naturalmente feito pelo próprio chefe da orquestra, embora a etiqueta Odeon a ele não faça referência, obedeceu aos cânones clássicos, dando-nos a impressão de estarmos numa sala de espetáculos ouvindo um concerto de pistão, o que, em última análise, outra coisa não deixa de nos proporcionar esse precioso disco.

Valor artístico e comercial não falta a essa gravação.

Na foto: Nelson Novaes, que já gravou vários discos de sucesso na Continental, está programado para gravar, ainda este mês, para a etiqueta dos três sininhos, Sozinho Noite Afora, versão do fox italiano Soli, Soli nella Note, e Um Amor Igual ao Nosso, canção da famosa dupla de compositores franceses Borel e Clerc.[1] A versão brasileira de ambas as partituras foi feita pelo próprio Nelson Novaes.


[1] Como já se viu na crônica do dia 10 de julho, Borel-Clerc eram uma pessoa só, o compositor Charles Borel-Clerc.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Diário da Noite, 03 de Junho de 1950

ASSOVIO E PISTÃO

Tivemos ocasião, em nota anterior, de nos referir à gravação recentemente levada a efeito, por Georges Henry e sua orquestra, nos estúdios da Continental, desse clássico já tão popularizado Hora Staccatto. Recebemos, dias depois, um punhado de cartaz indagando onde essa gravação poderia ser encontrada. E aqui vai a explicação: poderá ser encontrada em qualquer casa revendedora, mas lá para meados do corrente mês, pois o disco... lançado. Faz parte do suplemento de julho da Continental e a nossa análise foi feita pela prova, que nos foi gentilmente cedida pelo Hernani Dantas, diretor artístico em São Paulo, da etiqueta dos três sininhos. Trata-se, realmente, de uma gravação magnificamente executada, técnica e artisticamente, sendo de observar-se o magnífico solo de assovio de William Fourneau, elemento do conjunto, que é mais límpido e seguro do que o de Gene Conklin, da orquestra de Freddy Martin, que executou a mesma Hora Staccatto, para a Victor. Digno de nota ainda é o pistão de Georges Henry, irreverente, claro e abundante em notas pitorescas. Aquele final, em que Fourneau e Georges disputam a primazia de atingir as notas mais altas da escala é simplesmente alucinante.

Diário da Noite, 23/5/50
Fizemos questão de voltar à análise dessa gravação, deveras das mais interessantes ultimamente apresentadas pela Continental, pelo fato de o referido conjunto se encontrar em São Paulo e estrear hoje na Cidade do Rádio, ao microfone da Tupi. Provavelmente Georges Henry executará, como o fez na temporada anterior, Hora Staccatto, e, assim, o público ouvinte poderá observar a execução da orquestra e as interpretações de William Fourneau e do frenético regente gaulês. Conseqüentemente, terão idéia do valor artístico da gravação objeto das nossas considerações.

Henry (à esq.) e Fourneau (no centro) - Diário da Noite, 3/6/50
Na foto: Georges Henry, o irrequieto band leader francês, cuja estréia é ansiosamente aguardada para hoje, na Cidade do Rádio.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Diário da Noite, 11 de Maio de 1950

ÊXITO GARANTIDO

É sempre com reservas que recebemos os célebres “arranjos modernos” da música erudita. É que nem sempre os “arranjadores” são felizes nas adaptações e o resultado é que o ouvinte trava conhecimento com acordes musicais dos grandes mestres, completamente mutilados, dando-lhe falsa noção do original, quase sempre perfeito, melodioso e belo. Isso não quer dizer, porém, que todas as adaptações sejam más. Há, até, as que, por assim dizer, melhoram o original, popularizando-o, isto é, despertando no público o desejo de conhecer a música clássica, tal qual fora escrita pelo autor.

Hora Staccato, a conhecida partitura escrita originalmente para violino é uma das músicas ultimamente mais visadas pelos arranjadores modernos e pelos intérpretes populares. Na versão clássica, foi gravada pela quase totalidade dos virtuoses, sendo a mais famosa a executada por Jascha Heifetz para a Victor, havendo também uma transcrição para orquestra sinfônica que foi gravada, ainda para a etiqueta Victor, pela Boston Pops, sob a regência famosa de Arthur Fiedler. A versão popular tem sido gravada por um sem número de orquestras e conjuntos. As mais famosas, todavia, são a gravada por Harry James, em solo de pistão, muito conhecida graças ao filme Escola de Sereias, do qual participa, e a executada por Benny Goodman, em solo de clarineta.

Freddy Martin
Freddy Martin, todavia, apanhou a partitura original e ainda que pareça incrível, adaptou-a para solo de assovio, acompanhado de orquestra. Essa gravação, que é Victor, foi uma coqueluche em todo o mundo. E com razão, porquanto o solista, Gene Conklin, com o seu assovio, nos dá uma Hora Staccato curiosa.

A Continental, agora, vai lançar a mesma Hora Staccato na versão da orquestra francesa de Georges Henry, tendo por assoviador William Fourneau. Será um sucesso esse disco. Georges Henry e William Fourneau estão verdadeiramente espetaculares. Aquele no pistão e este no assovio. A versão não é a mesma de Freddy Martin, mas do chefe do conjunto francês. E é melhor. Especialmente o assovio de Fourneau, mais claro e seguro. Observe-se nos últimos sulcos da gravação a disputa entre o assovio e o pistão. Além de humorístico, demonstra o impressionante fôlego dos dois solistas. Note-se, ainda, o acompanhamento executado pelo conjunto, que é perfeito, não sendo dada uma nota fora, apesar das passagens rápidas todas elas se entrosando de forma perfeita com o solista assoviador. A gravação Continental, por sua vez, é magnífica, captando com limpidez o solo de Fourneau e quase sem chiado, frisando-se que foi feita nos seus estúdios do Rio de Janeiro – nacional, portanto.

Êxito garantido está reservado a esse disco.

Na foto: Fazia tempo que a vozinha curiosa de Ademilde Fonseca se ausentara do disco. Quem não se lembra do seu famoso Tico-Tico no Fubá, ainda hoje tão procurado e disputado? Pois Ademilde estará de volta, dentro em pouco, ainda com dois bamboleantes chorinhos: Brasileirinho e Teco-Teco. Ouvimos as provas desse disco e pudemos verificar que a querida vocalista retorna bastante segura, e magnificamente secundada pelo regional de Altamiro Carrilho, cantando os chorinhos como só ela sabe.

Brasileirinho e Teco-Teco foram gravadas há poucos dias e o disco sairá em princípios de julho, ao que nos informou o Hernani Dantas, da Continental.