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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Diário da Noite, 10 de Julho de 1950

DOIS CARTAZES

A Victor lançou há poucos dias, dois discos contendo gravações de Perry Como e Jean Sablon, dois renomados cartazes do disco. Perry Como nos proporciona duas bonitas composições de Oscar Hammerstein II e Richard Rogers. Em ambas as faces o festejado vocalista norte-americano se porta de maneira segura e convincente, cantando com muita alma, convencendo plenamente. Conquanto a canção Some Enchanted Evening, que é, como dissemos, muito interessante, figure como a principal do disco, isto é, marcada como sendo a face A, sinceramente gostamos mais da melodia constante da face B, intitulada Bali Hái. A canção conta uma delicada e deliciosa lenda de amor dos mares do sul. Um bonito tema, como se vê. Perry Como vocaliza esta canção de maneira superior, chegando mesmo a impressionar-nos. Esta gravação talvez seja a mais perfeita até hoje executada pelo aludido cantor. Digna de nota a orquestração feita por Oscar Hammerstein II. A orquestra, assistindo o cantor, de perto, parece desejar ajudá-lo a narrar a bonita história do tema musical. E o curioso é que, de certa maneira, o consegue, sugerindo o ambiente das ilhas dos mares do sul, a brisa, os bosques, os lagos, o mar... Um bom disco, em resumo.

Jean Sablon
Quanto ao disco de Jean Sablon, nele estão gravadas as melodias J’ai Deux Amours de Vincent Scotto, Géo Koger e H. Varna; e Ah, Le Petit Vin Blanc, de Borel Clerc e Drejac. A primeira é uma antiga canção francesa, que grande número de artistas gauleses têm levado ao disco nos mais variados estilos. Jean Sablon vocaliza-a no seu estilo habitual. Tom grave, insistentemente grave, às vezes até forçado. Boa a orquestra que executa o acompanhamento e o arranjo orquestral. Já Ah, Le Petit Vin Blanc, de melodia vivaz e chacoalhante, não vai bem para a voz de Jean Sablon, em nossa opinião. A voz de Sablon, por natureza, foi feita para cantar melodias românticas, langorosas, para fazer revirar os olhos dos casaizinhos amorosos. Daí a impressão que temos estar ele deslocado na canção do trio Borel, Clerc e Drejac.[1]

Pelo exposto, os dois lançamentos da Victor poderão ser classificados como sendo, o primeiro, de Perry Como, bom; e o segundo, de Jean Sablon, como regular, em conseqüência da face de Ah, Le Petit Vin Blanc.

Na foto: Perry Como justifica o seu renome de um dos mais perfeitos cantores populares dos Estados Unidos com a sua interpretação de Bali Hái, fox que nos conta uma bonita história dos mares do sul.


[1] Na verdade Borel Clerc era uma pessoa só.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Diário da Noite, 09 de Junho de 1950

GRAVAÇÃO RECOMENDÁVEL

Com espírito construtivo tivemos ocasião, há poucos dias de chamar a atenção da direção artística da Victor no respeitante ao seu repertório popular nacional, que anda descuidado. Fizemos-lhe justiça no que tange ao seu admirável repertório clássico e no que diz respeito ao repertório popular internacional. É precisamente de um disco do repertório popular internacional da Victor o objeto da nossa crônica de hoje, aliás, prometida. Trata-se de gravação do jovem norte-americano Perry Como, interpretando My Melancholy Baby e When You’re Smiling.

My Melancholy Baby está muito bem vocalizada por Perry Como, sendo melhor ainda o acompanhamento que lhe faz a orquestra e o coro, que valorizam de forma superior a gravação. Bem diversa a interpretação de Perry Como da de Bing Crosby, que gravou a mesma melodia há mais de dez anos. Não é melhor nem pior que a interpretação de Bing Crosby. Ambas têm o mesmo nível, mas, em estilo, diferentes. Talvez o disco de Bing Crosby leve alguma vantagem no valor vocal do artista, pois o timbre vocal de Bing Crosby é, sem dúvida nenhuma, superior ao de Perry Como. Todavia, a nova sensação do disco, rádio e cinema, nos proporciona um My Melancholy Baby muito interessante, romântico, suave e confortante.

A face oposta, When You’re Smiling, é inferior, nas não desinteressante. Ainda aqui, orquestra e coro dão vida ao ritmo, que nos pareceu um tanto arrastado, o que, por sinal, acontece também com a face A. Não se falando na vocalização de Perry Como, sempre cuidada e segura, notando-se que ele se encontra à vontade, cumpre observar a performance dos violinos da orquestra e a intervenção do coro, sempre feita com propriedade, embelezando a melodia. Os apreciadores das músicas americanas, especialmente os admiradores de Perry Como, que não são poucos, não devem deixar de ouvir este disco, especialmente pela face de My Melancholy Baby.

Bing Crosby, Perry Como e Arthur Godfrey em 1950
Na foto: Prometemos apreciar My Melancholy Baby, na voz de Perry Como, tão logo a Victor lançasse o disco ao mercado. Hoje, cumprimos o prometido. Os fãs de Perry Como estão de parabéns, pois o disco é, deveras, interessante.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Diário da Noite, 18 de Maio de 1950

SAMBA-BOLERO

O bolero, sem dúvida alguma, é o ritmo do momento. Conquistou entre nós, como em todo o mundo, incalculável legião de fãs. É natural. O seu ritmo, sobre ser romântico, é deliciosamente dançante. E, como acontece com a maioria deles, se se alia à música uma letra bem feita, amorosamente quente, mesclada com uma orquestração cuidadosa, o seu sucesso é ainda maior. Sabedores disso, os autores astecas, românticos por natureza, nãose cansam de produzir, procurando satisfazer o insaciável gosto do público de todo o mundo.

A tal ponto chegou a popularidade do bolero entre nós que alguns compositores populares brasileiros, entenderam de afiar o seu ritmo com o do samba, surgindo assim, um terceiro, por sinal bastante interessante. Que Importa a Vida, que faz parte do disco objeto das nossas considerações de hoje, por exemplo, é um “samba-bolero”, sem dúvida curioso. Gravou-o o Nilo Sérgio, para a Continental. Tivemos a impressão de que Que Importa a Vida foi feito sob medida para a voz de Nilo Sérgio. O cantor vocaliza com muita propriedade a composição de Raimundo Baima, parecendo estar perfeitamente à vontade. Acompanha-o a Orquestra Tabajara, um dos mais homogêneos conjuntos populares nacionais. Fê-lo discretamente, embora com eficiência. Deixou que o vocalista se expressasse à vontade, não importunando a sua interpretação, cobrindo-lhe a voz com os instrumentos de percussão.

Severino Araújo
Todavia, Sorrisos, um arranjo de Severino Araújo do clássico Smiles, de Lee Roberts, gravado na face oposta, é de valor artístico inferior. Nilo Sérgio está bem. Mas o ritmo pesadão, tendo como contra-peso aquele coro vocal de mau gosto da orquestra, baixaram mais ainda o valor da face.

Os fãs de Nilo Sérgio, porém, gostarão do disco. O jovem cantor está se aprimorando, notando-se maior segurança nas suas interpretações, não titubeando nas notas altas. O seu timbre vocal está mais amadurecido e educado, tornando-o personalíssimo, o que vem revelar que Nilo leva a sério a sua carreira.

Nilo Sérgio
Esse disco, assim, apesar da fraqueza do nível da face B, vale pelo bom padrão de Que Importa a Vida e pela boa interpretação que lhe empresta o vocalista, acompanhado, como dissemos, com bastante discreção pelo conjunto Tabajara.

Na foto: Uma das mais perfeitas gravações de Bing Crosby, até hoje foi, sem dúvida, a da melodia My Melancholy Baby, cujo disco atingiu venda “record”. A Victor, agora, em seu último suplemento, nos apresenta a mesma My Melancholy Baby, na voz do apreciado Perry Como, em bela interpretação. Numa das próximas notas analisaremos esse disco.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Diário da Noite, 13 de Abril de 1950

DOIS NÚMEROS NACIONAIS

Lúcio Alves, o melodioso crooner nacional, está presente no suplemento Continental deste mês num disco em que canta Na Paz do Senhor, uma interessante toada sertaneja que leva a assinatura do aplaudido José Maria de Abreu, e Terminemos Agora, um romântico samba que casa muito bem com a sua voz.

O aplaudido cantor interpreta com muita propriedade a toada sertaneja. O seu estilo vocal é originalíssimo, sem grandes pretensões, manso e extremamente agradável. Cumpre notar que o acompanhamento orquestral está excelente, não estivesse o conjunto sob a batuta do próprio autor da melodia.

Lúcio Alves, assim, ao cantar a história de “Pai Roque”, foi muito auxiliado pela orquestra, cujo regente, José Maria de Abreu, procurou dar realce à sua curiosa voz. O jovem crooner, nota-se, está bem mais seguro nesta gravação que em seus discos anteriores. A outra face nos proporciona Terminemos Agora, um samba romântico, cujo título deixa antever o motivo dos seus versos e, assim, o lirismo da melodia. Lúcio Alves se mostra, também aí, muito seguro e, por se tratar de um samba, mais à vontade. Exprime a letra com liberdade, confiança, dando vazão ao seu estilo peculiar. Esta face não desmerece a anterior, que é a principal do disco.

Lúcio Alves, em 1953
A Continental, empenhada agora em remeter para o exterior as nossas músicas, pode considerar-se de parabéns pelo lançamento desse disco. Melodias como essas, bem cuidadas, na parte artística e do lado técnico da gravação, é que devem ser levadas para o exterior. Na Paz do Senhor e Terminemos Agora, afinal, além de possuírem bonitos temas musicais, possuem letras muito bem feitas que, ao contrário de boa parte de nossas músicas populares, que só dizem bobagens, contam uma história. Produções assim é que se pode considerar, no campo popular, de música brasileira.

Embora um pequeno chiado seja observado, conseqüente da massa empregada na confecção do disco, pode ele ser considerado muito bom e recomendável a todos quantos apreciam músicas langorosas e românticas.

NOTÍCIAS

Perry Como
Tem alcançado grande sucesso o disco em que Perry Como, o agradável cantor norte-americano, gravando para a Victor, canta With a Song in My Heart e Blue Room, as duas bonitas melodias. – A famosa orquestra inglesa de Mantovani apresentará, no suplemento de maio da Odeon, Balada, de Brahms, e Reverie, de Schuman. – Por seu turno, a Columbia nos apresentará no mês vindouro a Sinfônica de Viena, regida por Fritz Reiner, interpretando várias Danças Húngaras, de Brahms. – Luiz e Zé Gonzaga são dois irmãos acordeonistas e compositores populares. O estilo das suas composições são gêmeos. Um gravando para a Victor e o outro para a Odeon estão estabelecendo confusão. Um deles, após acordo que entabularam, vai trocar o nome. – A MGM lançou, há pouco, um álbum de discos gravados por Carmen Miranda contendo as músicas do seu próximo filme: Nancy Goes to Rio. O novo Bando da Lua faz parte das gravações.