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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 23 de agosto de 1950

MELODIAS FRANCESAS

Dentre as músicas do agrado do público brasileiro, especialmente do público paulista, a melodia francesa, sem dúvida alguma, goza de largo prestígio. Tanto é assim, que nos suplementos mensais das gravadoras, onde são relacionados os seus lançamentos, figuram, infalivelmente, dois ou três discos gravados pelos mais prestigiosos artistas gauleses. E a aceitação desses discos tem sido tal que os grandes cartazes de França, sabedores disso, já iniciaram uma ofensiva em regra, de temporadas que, afinal, ajuda a venda de suas gravações. Assim é que, iniciando com a vista de Charles Trenet e Georges Ulmer, as temporadas de artistas franceses se sucedem com a visita de Yves Montand, Lucienne Delyle, Jacques Pills, Jean Sablon e, dentro em pouco, de Yvette Giraud. As gravações desses artistas são, com efeito, apreciadíssimas, não fossem eles os mais fiéis representantes da canção gaulesa. Por isso, nos suplementos de setembro próximo das gravadoras nacionais, vamos encontrar discos de todos esses artistas. A Odeon, por exemplo, nos promete, depois de ter colocado na praça discos de Georges Guétary, Marie-José e Tommy Murena, correspondentes ao suplemento de agosto, Emile Prud’Homme e seu conjunto, tendo como vocalista Lucien Jeunesse, interpretando Pigalle e Aconchegado ao Teu Coração; Yves Montand, com Joan Marion e sua orquestra, em Minha Garota, Minha Querida e Um Chopp Pequeno, secundado por Bob Costela e seu ritmo; e Lily Fayol, com Jean Faustin e sua orquestra, na interpretação de Garota dos Bastões Brancos e Na Ópera, secundada pelo conjunto orquestral de Jean Laporte.

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A Columbia, por sua vez, programou: É um Rapagão e Sob o Sol de Maio, canções na voz de Lucienne Delyle, acompanhada pela orquestra feminina de Aimé Barelli; Ideal e Fogos Campestres, na interpretação de Tino Rossi, secundado, respectivamente, por Marcel Cariven e sua orquestra e pelo conjunto de Marius Coste.

Por seu turno, a Victor promete quatro discos de Jean Sablon, acompanhado de orquestra: J’Ai Peur de L’Automne e Don’t Take Your Love From Me; Tell Me, Marianne e Lillette; I’ll Stop Loving You e Son Voile Qui Volait; Berceuse e Utrillo, são os títulos das gravações. Nada menos de seis discos de Yvette Giraud foram programados pela Victor que, naturalmente, previu a sua visita ao Brasil: Ivan, Ivanine e Ange ou Demon; Dans La Foret e Maitre Pierre; Render De Vous e Joue Contre Joue; Jolicoeur e La Danseuse Est Créole; Je Te Serai Fidéle e Ukraine; Rest Encore e La Chambre, são os nomes das canções. Todas estas melodias são cantadas pela suave vocalista, acompanhada de orquestra, através de bonitas orquestrações. Apenas um disco de Alys Robi foi incluído no suplemento Victor: Nuit Et Jour, adaptação da melodia de Cole Porter, Night and Day, e Chianpanecas, são as partituras que completam o disco.

Diário da Noite, 12/7/50 - Clique para ver em alta resolução
Diário da Noite, 9/8/50
Não recebemos a lista avançada da Continental. Entretanto, em seu suplemento do corrente mês, conforme tivemos ocasião de noticiar, a etiqueta dos três sininhos incluiu e já colocou nas revendedoras, Ma Chambre Bleu e Prelude, na voz de Michel Allard; Merci e Une Femme Par Jour; Parce Que Ça Me Donne Du Corage e Tout Ça, foxes na voz de Jacques Pills, secundado por sua orquestra. Aliás, estas gravações de Jacques Pills, especialmente Merci, merecem ser conhecidas, não apenas pela interpretação do vocalista como pelas deliciosas orquestrações que possuem.

Como se vê, o público paulista, que tanto gosta de boleros e baiões, mas tem uma predileção especial pela canção francesa, dispõe de farto material para escolher.

Na foto: Yves Montand, que todos esperamos realizasse uma temporada em São Paulo, não o fará. Seu contrato com a boate e com a rádio-emissora do Rio de Janeiro já se findou e o apreciado chansonier parisiense já voou rumo a Paris. Entretanto, aos seus fãs, resta o consolo de saber que um novo disco seu está sendo prometido, para o mês próximo, pela etiqueta Odeon, contendo as seguintes melodias: Minha Garota, Minha Querida e Um Chopp Pequeno. Secunda-o, na primeira melodia, a orquestra de Joan Marion; e, na segunda, o conjunto de Bob Costela.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Diário da Noite, 5 de agosto de 1950

O CARUSO DO SÉCULO XX

Dentro de algumas semanas uma sala de projeção da cidade exibirá um filme com o título Aquele beijo à meia-noite, o qual reúne, entre outros, os artistas Mario Lanza, Kathryn Grayson e José Iturbi. Trata-se de um grande filme musical, segundo a opinião da crítica estrangeira. Kathryn Grayson e José Iturbi são figuras conhecidíssimas do público brasileiro. Mario Lanza, entretanto, é totalmente desconhecido. No entanto, é uma figura de artista das mais impressionantes até agora surgida neste século, segundo a opinião de Serge Koussevitzky, ex-regente da Orquestra Sinfônica de Boston e descobridor desse jovem tenor, de apenas 27 anos de idade. Koussevitzky, do alto do seu prestígio, chega mesmo a dizer que Mario Lanza, para ele, é um segundo Caruso, “o Caruso do século XX”.

Mario Lanza, nós já tivemos ocasião de dizer por esta mesma coluna, é norte-americano, filho de pais italianos. Seu verdadeiro nome é Alfred Arnold Cocozza. O nome de Mario Lanza ele tomou emprestado à sua mãe, quando solteira – Maria Lanza – por sugestão do próprio Sergei Koussevitzky, que achou esse nome mais artístico. Já foi convidado para cantar no Scala de Milão pelo seu diretor, o maestro Victor de Sabata, não podendo aceitar o convite por estar precisamente sob contrato da empresa cinematográfica produtora do filme em apreço.

Pois é exatamente desse jovem e prodigioso tenor que vamos ocupar-nos hoje, através de suas primeiras gravações, editadas pela Victor, em número de três, e que fazem parte do seu suplemento de novidades do corrente mês. Os números que Mario Lanza interpreta, nessas gravações, são os seguintes: Che Gelida Manina, do 1º ato da ópera La Boheme, de Puccini; Celeste Aida, do 1º ato da ópera Aida, de Verdi; Mamma Mia Che Sapé?, Core ‘ingrato, I know, I know, I know e They Didn’t Believe Me, as duas últimas do filme a que nos referimos.

Só temos palavras elogiosas para as gravações em apreço. Tudo nelas está perfeito. Som cristalino. Interpretação das mais soberbas, quer nas canções, quer nas árias. Acompanhamento orquestral notável, feito pela própria Sinfônica de Boston, sob a regência Serge Koussevitzky, muito embora a etiqueta do disco a ela não faça qualquer referência.

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O que nos impressionou foram as interpretações de Lanza das páginas de Verdi e Puccini, onde o tenor faz questão de demonstrar a sua exuberância vocal, de belíssimo timbre, seguro e correto nas inflexões, sem qualquer senão na respiração, justificando assim o cognome que lhe deu Koussevitzky: “Caruso do Século XX”.

As canções do filme, I know, I know, I know e They Didn’t Believe Me, não são próprias para a voz de Lanza, que é alta. Trata-se de duas páginas excessivamente lentas, embora belas, mas que, positivamente, não vão bem para o estilo do cantor.

Em resumo, são três discos que recomendamos com prazer àqueles que admiram as grandes vozes. Mario Lanza – ou Alfred Arnold Cocozza – é, sem dúvida, apesar de sua pouca idade, uma das maiores vozes da atualidade.

Na foto: Michel Allard, o jovem cantor francês que ora nos visita, depois de gravar, para a Continental, com sua bonita voz e estilo todo pessoal, a canção de Charles Trenet Formidable, que mereceu uma crônica especial de nossa parte, gravou agora, para o mesmo selo, mais um disco. Prelude e Ma Chambre Bleue são as canções que interpreta, aliás, muito bem, sendo de notar os belos arranjos do maestro Gabriel Migliori.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Diário da Noite, 27 de Maio de 1950

GRAVAÇÕES INTERESSANTES

Vamos apreciar, em nossa nota de hoje, dois discos, por sinal muito interessantes. O primeiro deles é o gravado por Ernesto Bonino, vocalista italiano, cantando dois sambas: Isto é Brasil e Um Cantinho em Você.

Confessamos que foi com reserva que nos dispusemos a ouvir esse disco. Como tivemos ocasião de dizer, por essas mesmas colunas, não gostamos de ver artistas de um gênero, apenas para contentar meia-dúzia de fãs que conquistou à última hora, interpretar coisas fora do seu estilo. E isso porque o desastre é fatal.

Já citamos exemplos ao comentar outro disco, ainda da Continental, gravado por outro intérprete peninsular. Demonstramos que o próprio Tito Schipa, cuja voz invulgar não cansamos de admirar, fracassou muitas vezes ao gravar melodias que fugiam do seu estilo habitual. Um tango, por exemplo, gravado por ele há tempos pode ser tudo, menos um tango, em que pese a sua vocalização primorosa.

Ernesto Bonino
Todavia, Ernesto Bonino nos surpreendeu. Ao colocarmos a agulha sobre a face de Um Cantinho em Você e ele começou a cantar, ficamos espantados ao verificar como o rapaz assimilou bem o ritmo e o estilo langoroso de Dick Farney. Além do mais, ele canta em português, o que deve ter tornado mais difícil a interpretação. Diga-se de passagem que Bonino não “amacarrona” o português, a não ser nos “r” e na palavra “tranqüila” que ele pronuncia tranquila, com o “u” mudo. As demais ele as pronuncia com correção. A face oposta do disco, Isto é Brasil, embora constitua a face A, para nós é mais fraca, ainda que Bonino a ela também empreste boa vocalização e interpretação. Aquele seu “Oba, rapazes!” está uma delícia. Magnífico o acompanhamento orquestral.

O outro disco a que nos referimos é o gravado por Michel Allard, cantando Formidable e Mes Jeunes Anées, ainda para a Continental. Gostamos imensamente da limpidez deste disco, em ambas as faces. A bonita voz de Michel Allard foi captada com rara felicidade pelo técnico, oferecendo-nos, assim, um Formidable muito mais interessante do que o que nos deu Charles Trenet.

Rádio Record - Diário da Noite, 13/3/1950
Ainda neste disco gostamos mais da face B, onde Michel Allard nos pareceu mais à vontade e a melodia, menos vibrátil haver possibilitado ao festejado chansonier demonstrar o seu belo timbre vocal.

Eis aí, portanto, dois discos que se recomendam.


Na foto: Eis uma artista que dispensa qualquer apresentação. De fato, Adelina Garcia, das intérpretes astecas é talvez, a mais aplaudida em todo o mundo. O bolero Hipócrita, que ela gravou para a Odeon, recentemente, obteve venda “record”. Em muitas revendedoras, por sinal, já não é mais possível encontrá-lo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Diário da Noite, 10 de Maio de 1950

“CHANSONIER” ÍTALO-FRANCÊS

Embora poucos saibam, Yves Montand, a “nova sensação de Paris”, não é francês, mas italiano, tendo nascido em Veneza há mais ou menos vinte e oito anos. Sua família, porém, quando o garoto tinha apenas dois anos, mudou-se para Marselha, onde o futuro chansonier cresceu e fez os seus estudos primários e secundários.

Yves, porém, não teve uma juventude das mais folgadas. Para ajudar s seus pais na luta pela vida teve que se empregar numa fundição de aço, trabalho esse nada leve para um jovem de complexão não muito avantajada. Na usina, porém, nas horas vagas, distraía os colegas, cantando as últimas novidades lançadas por Maurice Chevalier ou Charles Trenet. Essas suas audições, a princípio voluntárias, tornaram-se, mais tarde, obrigatórias, pois os operários da fundição não podiam passar sem elas. Admiravam a maneira como o jovem Yves cantava. O italianinho – diziam – tinha um grande futuro.

Um descobridor de valores ouviu falar do cantorzinho da usina de aço. Ouviu-o e não escondeu a sua admiração. Seria, não tinha a menor dúvida, “a nova sensação de Paris”. E acertou!

Yves Montand
A primeira apresentação de Yves, como profissional, deu-se no Colisée, de Marselha, alcançando a sua temporada sucesso inédito. Na noite de estréia, todos os operários da usina de aço, trajando as suas melhores roupas – que por sinal os incomodavam sobremaneira, fazendo-os suar por todos os poros – compareceram ao Colisée para ver e ouvir “o nosso italianinho”. Foi uma consagração. Uma noite de grandes carraspanas para os operários da fundição.

Em 1944 Yves foi chamado a Paris para cantar no Moulin Rouge. Sob a tutela artística de Edith Piaf, Yves mudou o seu estilo americano, especializou-se no estilo vocal parisiense. É considerado, atualmente, o maior chansonier parisiense da nova geração. Suas principais gravações são: Clopin Clopant, Mais Que-Est-Ce J'Ai, Les Enfant Qui S’Aiment, Matilda, Maitre Pierre, A Pris, Ma Douce Vallée e Un P’tit Bock.

Yves Montand grava para o selo Columbia francesa que, como se sabe, é distribuído no Brasil através da etiqueta Odeon.


Na foto: Georges Guétary, um dos grandes cartazes de França, é pouco conhecido entre nós. Grava para a Pathé. A Odeon, que representa, no Brasil, a maioria das grandes marcas internacionais, inclusive a Pathé, lançará brevemente as gravações desse festejado chansonier.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Diário da Noite, 17 de Abril de 1950

ALGO DESAGRADÁVEL

Ouvimos, há poucos dias, um recente lançamento da Odeon em que a orquestra Argentina de Osvaldo Norton é apresentada nos “foxes” Whispering e Avalon. Não reconhecemos, para sermos francos, o conjunto do entusiasta band leader. Mas é simples a explicação: a gravação foi executada há cinco anos, isto é, em 1945! O conjunto, então, não era comparável com o atual. Aliás, quem quiser ter uma idéia do conjunto atual de Osvaldo Norton é fácil. É só procurar qual das boates de São Paulo em que ele está atuando, pois ele se encontra entre nós, ou senão, ouvir com atenção o acompanhamento orquestral do Luna, Lunera, gravada por Gregorio Barrios, onde o conjunto está simplesmente notável. Aliás, nesse Luna, Lunera o conjunto de Norton e o festejado vocalista capricharam, resultando num ótimo disco que foi um dos mais vendidos ultimamente.

Todavia, o conjunto, em 1945, quando gravou Whispering e Avalon não era dos melhores. Deixava muito a desejar, o que se observa pelo disco em apreço. Tocava em tempo de swing sem que os componentes do conjunto, especialmente o bateria e o piano, tivessem noção do ritmo. Talvez o sax-tenor e o regente tivessem conhecimento do que viesse a ser o swing. Especialmente o sax, que em ambas as gravações se sai muito bem, tendo o operador captado para a massa, com muita felicidade, a sua bela sonoridade.

Casa Nelson & Nelson

Charles Trenet
O disco, assim, não se recomenda. O próprio Osvaldo Norton, hoje, possuidor de um conjunto homogêneo, ao ouvir essa gravação, feita há tanto tempo, há de ficar encabulado... Daremos um doce a quem conseguir dançar (o disco é classificado como sendo “dançante”) com esse Whispering e Avalon. O ritmo está a 120 por hora...

Na foto: Eis o mui apreciado Charles Trenet numa pose fotográfica absolutamente cretina. Esse seu chapeuzinho é francamente de amargar... Sua voz, porém, é qualquer coisa de suavizante quando numa canção como Menilmontant, La Mer, Marie Marie e tantas outras, muitas de sua própria lavra. Douce France e La Mer foram as gravações suas mais procuradas ultimamente. Trenet é astro do selo Columbia.