sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Diário da Noite, 17 de Julho de 1950

MAIS NOTAS E NOTÍCIAS

Eis aqui mais um punhadinho de notícias diretamente relacionadas com o mundo dos discos:

A Star – finalmente nos chega uma notícia da Star – gravou, na voz de Onéssimo Gomes, dois sambas: Não te Iludas, de Zeca do Pandeiro e Edgard Nunes, e Desdita Cruel, de Vitório Junior e Wilson Ferreira. – A Victor anuncia, com justificável satisfação, mais uma gravação de Luiz Gonzaga: O Chofer de Praça, da parceria Fernando Lobo/Evaldo Rui. Dizem que a sanfona de Luiz Gonzaga, nessa gravação, está um espetáculo e que a composição é um autêntico hino de louvor à classe dos motoristas. – Informa-se que o álbum de hinos e marchas esportivas, brotados da fecunda imaginação do magrela Lamartine Babo, elaborado com muito capricho pela Continental, para comemorar a disputa da Copa do Mundo, está obtendo inesperada aceitação do público. – Segundo notícias que nos vêm do Rio, os compositores populares já estão se preparando para o Carnaval. Muito embora estejamos distanciados dos festejos momísticos mais de meio ano, já o pessoal da música convoca os seus intérpretes favoritos e procura oportunidades nas quotas que cada artista tem nas suas respectivas fábricas. – A gravação de Dircinha Batista, para a etiqueta Odeon, do samba de Ary Barroso, Na Baixa do Sapateiro, numa notável orquestração do maestro Carioca, e que está sendo colocada nas revendedoras esta semana, promete ser um grande sucesso comercial, já que o artístico está comprovado.


– A Capitol, que inaugurou sua fábrica, instalada na Estrada das Furnas, na Tijuca, no Rio de Janeiro, sob a responsabilidade da firma Sinter S. A., adianta que o seu programa no Brasil, além das gravações levadas a efeito aqui, será selecionar as matrizes brasileiras para remete-las à Capitol norte-americana, dando assim grande oportunidade de incrementar, mais ainda, a divulgação da música popular brasileira nos Estados Unidos. – Com alusão à Capitol, sabe-se que suas gravações serão feitas nos estúdios da Rádio Ministério da Educação, cujas características acústicas obedecem aos mais modernos preceitos da arte.

Francisco Mignone
– Fala-se, ainda, que a Capitol seguirá o exemplo da sua co-irmã americana: terá uma linha completa de gravações, sendo que o setor de música erudita será preenchido pelas famosas gravações Telefunken, alemãs, austríacas e francesas, além das que a própria Capitol americana está gravando na Europa.

Na foto: Heriberto Muraro, figura obrigatória nos suplementos Odeon, comparece nos lançamentos programados para agosto próximo. A Sinfonia do Guarani, em arranjo para piano e grande orquestra, é o que nos é prometido. Francisco Mignone, festejado compositor, pianista e regente de primeira água, dirige a grande orquestra que secunda o solista na gravação em apreço.

Diário da Noite, 15 de Julho de 1950

NOVIDADES

As firmas gravadoras já começaram a receber as listas e as provas das novidades a serem lançadas no próximo mês de agosto. É com satisfação que observamos que a música nacional está dignamente representada, pelo menos em quantidade. É de esperar-se que o sejam, também, em qualidade. Algumas provas que já ouvimos nos deram boa impressão. Mas vamos às novidades: a Odeon promete, por exemplo, Hebe Camargo, a estrelinha associada, cantando Oh! José e Quem Foi que Disse?, dois magníficos sambas, aliás, já comentados nesta coluna; Fernando Barreto, também cantando dois sambas, Homenagem e Companheira; Dircinha Batista, ainda com dois sambas, valorizados pela assinatura famosa de Ary Barroso: Chama-se João e Na Batucada da Vida, este com uma letra terrível, quase imoral, de Luiz Peixoto; Wilson Roberto, cantando Brasil Romântico, um bom samba, e Amor e Mais Amor, versão brasileira do divulgadíssimo bolero de Bobby Capo; os Trigêmeos Vocalistas, com o seu estilo habitual, cantando o afro-brasileiro Ogum Nilê e a valsa Há Passado; Jorge Fernandes, nas canções folclóricas Engenhos de Minha Terra e Vaquejada; e, finalmente, Raul de Barros, com o seu trombone, tendo na parte vocal, Violeta Cavalcante, nos choros Parabéns Para Você e Faísca. Há ainda no suplemento da gravadora da rua da Liberdade a programação de um disco que esperamos com a mais viva ansiedade: Sinfonia do Guarani, de Carlos Gomes, em duas faces, com Heriberto Muraro ao piano, acompanhado de grande orquestra, dirigida pelo maestro Francisco Mignone.

Os Trigêmeos Vocalistas
Por seu lado, a Continental, também sempre farta em produções nacionais, programou uma porção de gravações com artistas brasileiros, cuja relação ainda não obtivemos mas que, se adianta, ser bastante variada.

A Victor, cuja lista de melodias para agosto ainda não foi elaborada, ao que supomos, prepara, segundo informações que colhemos, um bom suplemento de novidades nacionais, desta vez bem cuidado, com composições selecionadas com rigor e caprichosamente orquestradas. Vamos aguardar.

A Capitol, cuja fábrica nacional vem de ser inaugurada na capital da República, e que vai constituir séria concorrente para as demais gravadoras há muito tempo instaladas no Brasil, pela propaganda que já iniciou através do rádio e da imprensa, vai caprichar, com o máximo rigor, o seu suplemento nacional. Para agosto, por exemplo, ao que se adianta, os melhores lançamentos nacionais serão da Capitol. Será mesmo? Que fiquem de sobreaviso a Odeon, a Victor, a Continental e a Elite, já que a Star continua capengando. E por falar na Elite, também a nova e simpática etiqueta tem gratas surpresas, no campo musical nacional, para o mês vindouro.

Casa Roberto Gordon

Como se vê, o próximo mês promete, no campo do disco. Haja dinheiro para se gastar...


Na foto: Carmen Miranda está figurando na lista avançada da Odeon, em sua parte internacional, com um disco no qual se acha gravado, numa das faces, o Baião, de Luiz Gonzaga. Ouvimos a prova desse Baião, cantado pela ex-“garota notável”. Que coisa horrível, santo Deus! Por cúmulo do azar, ainda intervém as Irmãs Andrews para tornar a gravação mais barulhenta. O que a nossa querida Carmen tão estragadinha pelos americanos, canta, pode ser tudo, menos o delicioso Baião, de Luiz Gonzaga. Como o espírito infantil dos norte-americanos aceita tudo de bom grado, é possível que o tal “Baião” seja lá Estados Unidos um grande sucesso. Aqui, porém, valerá apenas como simples curiosidade.

Diário da Noite, 14 de Julho de 1950

UM TRIO APRECIADO

A Victor, não faz muito, lançou um disco pelos Three Suns, em que eles interpretam, num arranjo especial, a Serenata da Mula, de Friml, e a Serenata de Schubert. Não tivemos ocasião de apreciar esse disco porque, infelizmente, ele não nos chegou às mãos. Todavia, ouvindo-o agora pudemos constatar do seu valor, especialmente pela face em que executam a Serenata, de Schubert, que eles transformaram, de tênue e confortante melodia, numa versão acentuadamente ritmada, em compasso 4/4.

Os Three Suns, compostos de órgão, acordeão e baixo (em algumas gravações empregam o vibrafone), constituem um dos mais agradáveis conjuntos no gênero. A combinação dos instrumentos, feita sempre com inteligência, resulta em sons curiosos, de efeitos imprevistos, sempre agradáveis. Os instrumentos revezam-se nos solos, chocando-se às vezes, no tema principal da melodia, constituindo aí, principalmente aí, nesse choque de sons diversos, a arte do trio, pois o ouvinte aguarda sempre um resultado imprevisto, isto é, sons combinados de forma agradável.

The Three Suns
Mas não é da gravação das Serenatas, de Friml e de Schubert, que vamos falar em nossa nota de hoje, senão de duas outras Serenatas, a de Romberg, que faz parte da opereta O Príncipe Estudante e a de Bixio e Cherubini, intitulada Serenata ao Luar, que a Victor está colocando nas revendedoras, ainda em gravação dos Three Suns.

A Serenata de O Príncipe Estudante, de Romberg, é uma página musical bastante conhecida do grande público, graças ao rádio-teatro. É ela utilizada com freqüência como característica musical dessas audições radiofônicas em gravações orquestrais. Por outro lado, os amantes de operetas, que não são poucos, conhecem-na e admiram-na pelo original cantado. Os Three Suns emprestam à partitura interpretação curiosa, ainda em tempo 4/4, mas que, apesar disso agrada ao grande público. Como sempre, os solistas se revezam nos solos e, de momentos a momentos chocam-se, advindo daí resultados imprevistos, que são do agrado dos admiradores do trio.

Rádio Tupi, Propaganda de 1948
O que se dá com a face principal do disco, acontece com o lado que o completa. Também a partitura de Bixio e Cherubini é muito conhecida do grande público, pois foi muito divulgada por inúmeras orquestras e vocalistas. Entretanto, na interpretação do conjunto em questão, Serenata ao Luar ganha um novo colorido que, por certo, satisfará aos que a ouvirem.

Em suma, as gravações dos Three Suns, além de possuírem boa dose de valor artístico, são de valor comercial incontestável, porquanto agradam ao grande público.


Na foto: A Orquestra de Carioca, um dos mais homogêneos conjuntos do Brasil, gravou para a Odeon um disco em que interpreta o samba Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e o choro Recordar é Viver, de Freire Junior, num arranjo de Cipó. No lado de Recordar é Viver apenas a orquestra intervém. Na face de Na Baixa do Sapateiro, porém, atua como solista Dircinha Batista. Boa vocalização e melhor interpretação. A página do irrequieto Ary Barroso ganha novas nuances na voz de Dircinha. Belíssima a orquestração de Carioca e superior a execução do seu festejado conjunto.

Diário da Noite, 13 de Julho de 1950

ESTRÉIA AUSPICIOSA

Essa figurinha graciosa e insinuante, que irradia simpatia e conquista todos os que dela se acercam, de sorriso largo e contagiante sempre a florir-lhe os lábios, pondo à mostra alva e sadia dentadura, e que todo São Paulo conhece pelo nome de Hebe Camargo, acaba de se transformar, além de prestigiosa estrela do rádio paulista, num promissor cartaz do disco. É que Hebe Camargo, conforme tivemos ocasião de noticiar, há dias, gravou o seu primeiro disco sob a responsabilidade da etiqueta Odeon, que a conquistou para a sua respeitável constelação. Ouvimos as provas das primeiras gravações da estrelinha das Emissoras Associadas e ficamos deveras impressionados com a performance da vocalista paulista. Ela canta dois sambas: Oh! José, de Esmeraldino Sales e Ribeiro Filho e Quem Foi que Disse?, de Gabriel Aguiar e Valadares do Lago. O disco, em ambas as gravações, está 100% perfeito. Hebe vocaliza os dois sambas com muita personalidade. Aliás, o público de São Paulo conhece de sobejo o estilo superior de Hebe, através de suas atuações ao microfone da Tupi-Difusora. Com sinceridade, não sabemos em qual das faces a estrela paulista está melhor. Em Oh! José que, diga-se de passagem, é uma composição bem bonitinha, valorizada pela letra interessante de Ribeiro Filho, ela porta-se com desenvoltura digna de nota, como se já gravara muitas vezes comercialmente. Aquela sua pronúncia do nome “José” mexe com a gente...

Na face que completa o disco, onde canta Quem Foi que Disse?, há mais movimento, pois o samba é de ritmo mais acentuado. A vocalista diz a letra com muita segurança e desembaraço, sendo digna de observação a clareza da sua dicção, coisa que nem todos os artistas – alguns até veteranos em gravações – têm conseguido, por possuírem graves defeitos de califasia.

Além da parte vocal perfeita, há o acompanhamento orquestral que, por sua vez, se faz credor da nossa admiração. A etiqueta Odeon não faz referência ao autor da orquestração nem ao conjunto que a executa. Todavia, a impressão que tivemos é de que o responsável pela orquestração e pelo conjunto não pode ser outro senão o paulista Carioca.

Hebe Camargo
Uma estréia feliz a de Hebe Camargo no mundo dos discos. Estamos certos de que essa sua primeira cera, que está programada entre os lançamentos Odeon para agosto próximo, a colocará como com justiça o merece pelo seu valor artístico, entre as primeiras – senão a primeira – vocalistas, no gênero, do Brasil.

Um disco que se recomenda.

Parabéns, Hebe.


Na foto: Hebe Camargo, a estrelinha das Emissoras Associadas, com a sua primeira cera, gravada com rara felicidade, está destinada a figurar na primeira plana da lista dos melhores artistas do disco, em seu gênero.[1]


[1] A querida Hebe Camargo se foi em meio à elaboração deste trabalho. É pena não ter podido mostrar-lhe esta crítica de sua primeira gravação, e o carinho que lhe dedicou J. Pereira.

Diário da Noite, 12 de Julho de 1950

UM BOM SEXTETO

Procurou-nos, há poucos dias, o Sr. Osvaldo Norton, chefe de um sexteto de ritmo argentino, atualmente nesta Capital, cumprindo contrato com uma boate. O jovem band leader ofertou-nos, com amável dedicatória, um disco com gravações do seu conjunto, executadas há poucos meses na Argentina sob a responsabilidade da etiqueta Odeon.

O conjunto do Sr. Osvaldo Norton, como se sabe, executa peças tipicamente dançantes. As gravações do seu sexteto, portanto, são ideais para os salões de baile. O disco que ele nos ofertou não foge à regra. Ali estão gravadas duas páginas essencialmente dançantes: En un Barco Lento a la China e Rica Pulpa. O fox de Frank Loesser foi otimamente tratado pelo pequeno conjunto, notando-se que o chefe da orquestra se preocupou mais que com qualquer outra coisa, em imprimir à partitura um ritmo bem marcado, a fim de satisfazer aos anseios dos bailarinos impenitentes. A orquestração dá destaque ao clarinete, soprado por Barbieri,[1] que, no conjunto é, também, responsável pelo sax-tenor, e ao vibrafone do próprio Sr. Norton. A vocalização de Teddy, crooner do conjunto, não deixa de ser interessante. Digna de observação ainda a marcação do compasso, feita pelo contrabaixo de Quintela.[2]

Eliseo Grenet
Na face oposta do disco, a rumba de Eliseo Grenet, Rica Pulpa, muito divulgada em todo o mundo depois que Carlos Ramirez a gravou. Gostamos imensamente do solo de piano executado por Luch, quase ao meio da gravação, quando lhe é permitido o destaque. Superior em todos os sentidos. Foi encarregado da parte vocal Jorge Belmar. Não está mal. Esforça-se por chegar até o último sulco com segurança, conseguindo-o. O finalzinho é que nos pareceu forçado. A impressão que se tem é de que Rica Pulpa, em face da sua vibrante movimentação, não é a página ideal para a esquisita voz de Belmar. Afora isso, o sexteto em peso – composto por Norton, ao vibrafone; Luch, ao piano; Quintela, ao contrabaixo; Teddy, à guitarra elétrica; Macias à bateria e Barbieri ao clarinete e ao sax-tenor – esparramou-se a valer, como, aliás, o permite a composição de Eliseo Grenet. Aquele encaixe do trecho da Rapsódia Húngara nº2, de Lizst, não deixa de ser curioso, embora bizarro.

O disco é de fabricação da Odeon argentina. Bom material e muito bem apresentado. A edição nacional desse disco só daqui a alguns meses será possível.

Casa Roberto Gordon

OSVALDO NORTON

Osvaldo Norton e seu sexteto, apesar de figurar na lista de novidades da Odeon para o mês corrente, com El Manisero e Pálida Canción, já executou, na Argentina, um punhado de novas gravações, entre as quais a que focalizamos em nossa nota de hoje.


[1] Mario Barbieri, tio do conhecido saxofonista Leandro “Gato” Barbieri”.
[2] Infelizmente não consegui achar, até o momento, referências seguras de todos esses músicos, Quintela, Luch, Belmar e Macias para poder incluí-los no índice.

Diário da Noite, 11 de Julho de 1950

NOTAS E NOTÍCIAS

Aqui estão mais algumas notas e notícias relacionadas com o mundo dos discos:

A Elite, cujos lançamentos nacionais começaram abafando, por bem cuidados artística e tecnicamente, vai lançar, dentro de poucos dias, talvez na segunda quinzena do mês corrente, novas gravações dos Demônios da Garoa e do Trio Mineiro, um autêntico trio caipira das alterosas. Aliás, com alusão a essas gravações, soubemos que elas já foram lançadas na Suíça, através do suplemento de junho-julho da Elite suíça. – Por falar em música regional, o suplemento de agosto da Continental é farto nesse setor. Nele vamos encontrar Rielinho, as Irmãs Castro, Tonico e Tinoco e Palmeira & Luizinho, cantando modas de viola, toadas, baiões, polcas, cateretês etc. – Com referência a Palmeira & Luizinho, digna de observação é a gravação de Paraná do Norte, onde eles se portam com segurança e descrevem o norte do Paraná com muita propriedade, através de uma linguagem de sabor típico. – A temporada de Gino Bechi em São Paulo veio prejudicar a venda dos seus discos. É que entrou, na questão, o fator psicológico. Os jovens, especialmente as jovens, gostavam de Gino Becchi, especialmente pela visão que dele tinham pelo cinema: um rapagão alto, másculo, de basta cabeleira negra e um sorriso contagiante a florir-lhe nos lábios. O Gino Becchi que aqui apareceu, porém, foi bem diferente... Resultado: queda na venda dos seus discos, segundo apuramos. Isso não quer dizer que a venda dos seus discos caiu totalmente. Bechi continua sendo um cartaz, mas não “aquele” cartaz. – O chansonier ítalo-francês Yves Montand, aquele delicioso intérprete de A Paris, artista exclusivo da Odeon, atualmente no Rio de Janeiro, ao que fomos informados, fará uma temporada em São Paulo.

Tonico e Tinoco
– Edú e sua famosa gaita (instrumento) estão presentes no suplemento Continental para agosto. Arabescos e Fumaça nos Teus Olhos, são os números que apresenta. – Lita Landi, por seu turno, também comparece no aludido suplemento, cantando Besame e Poema Triste, dois boleros que, segundo se adianta, são de primeira água. – Aracy de Almeida, que gravava para a Odeon, vai estrear na Continental, cantando Falta o que Fazer, samba, e Toca Rumba, uma rumba.

E é tudo, por enquanto.

Na foto: Depois do seu sucesso com Canción Del Mar, Carmen Cavallaro volta a se apresentar no suplemento Odeon do mês corrente, interpretando um belo arranjo do Concerto de Varsóvia, de Richard Addinsell e Sonho de Olwen, de Charles Williams, festejado compositor inglês, autor da maioria dos scores musicais dos filmes britânicos.

Diário da Noite, 10 de Julho de 1950

DOIS CARTAZES

A Victor lançou há poucos dias, dois discos contendo gravações de Perry Como e Jean Sablon, dois renomados cartazes do disco. Perry Como nos proporciona duas bonitas composições de Oscar Hammerstein II e Richard Rogers. Em ambas as faces o festejado vocalista norte-americano se porta de maneira segura e convincente, cantando com muita alma, convencendo plenamente. Conquanto a canção Some Enchanted Evening, que é, como dissemos, muito interessante, figure como a principal do disco, isto é, marcada como sendo a face A, sinceramente gostamos mais da melodia constante da face B, intitulada Bali Hái. A canção conta uma delicada e deliciosa lenda de amor dos mares do sul. Um bonito tema, como se vê. Perry Como vocaliza esta canção de maneira superior, chegando mesmo a impressionar-nos. Esta gravação talvez seja a mais perfeita até hoje executada pelo aludido cantor. Digna de nota a orquestração feita por Oscar Hammerstein II. A orquestra, assistindo o cantor, de perto, parece desejar ajudá-lo a narrar a bonita história do tema musical. E o curioso é que, de certa maneira, o consegue, sugerindo o ambiente das ilhas dos mares do sul, a brisa, os bosques, os lagos, o mar... Um bom disco, em resumo.

Jean Sablon
Quanto ao disco de Jean Sablon, nele estão gravadas as melodias J’ai Deux Amours de Vincent Scotto, Géo Koger e H. Varna; e Ah, Le Petit Vin Blanc, de Borel Clerc e Drejac. A primeira é uma antiga canção francesa, que grande número de artistas gauleses têm levado ao disco nos mais variados estilos. Jean Sablon vocaliza-a no seu estilo habitual. Tom grave, insistentemente grave, às vezes até forçado. Boa a orquestra que executa o acompanhamento e o arranjo orquestral. Já Ah, Le Petit Vin Blanc, de melodia vivaz e chacoalhante, não vai bem para a voz de Jean Sablon, em nossa opinião. A voz de Sablon, por natureza, foi feita para cantar melodias românticas, langorosas, para fazer revirar os olhos dos casaizinhos amorosos. Daí a impressão que temos estar ele deslocado na canção do trio Borel, Clerc e Drejac.[1]

Pelo exposto, os dois lançamentos da Victor poderão ser classificados como sendo, o primeiro, de Perry Como, bom; e o segundo, de Jean Sablon, como regular, em conseqüência da face de Ah, Le Petit Vin Blanc.

Na foto: Perry Como justifica o seu renome de um dos mais perfeitos cantores populares dos Estados Unidos com a sua interpretação de Bali Hái, fox que nos conta uma bonita história dos mares do sul.


[1] Na verdade Borel Clerc era uma pessoa só.