sexta-feira, 30 de maio de 2014

Diário da Noite, 25 de setembro de 1950

VÁRIOS LANÇAMENTOS

A Victor, depois de nos oferecer, pelo seu suplemento do corrente mês, três gravações em que apresentou ao público brasileiro a voz impressionante de Mario Lanza, “o Caruso do século XX”, incluiu em sua lista para outubro, em sua famosa série “selo vermelho”, mais um disco do jovem e já famoso tenor. Neste disco vamos ter: O Sole Mio, de Di Capua, e Mattinata, de Leoncavallo. Dois antigos e sempre apreciados números que receberam de Mario Lanza tratamento dos mais superiores, oferecendo-nos uma verbalização deveras soberba em ambas as partituras. O acompanhamento foi feito por grande orquestra a cujo nome e regente o selo não faz qualquer referência. Entretanto, trata-se de um conjunto possuidor de elevado número de elementos capazes, o que aliás, transparece em ambas as faces do disco em apreço.

Mario Lanza, ou Alfred Arnold Cocozza, seu nome real, através das gravações em questão, nos proporciona uma das mais perfeitas interpretações das páginas de Di Capua e Leoncavallo.

* Peter Kreuder, o popular pianista germânico que esteve entre nós até pouco tempo, será apresentado pela Victor, este mês, através de dois discos, nos quais vamos encontrar A Canção da Primavera, de Mendelson, Rosa de Maio, de Custódio Mesquita e Evaldo Rui, e Melodias de Strauss, em duas partes, onde nos é oferecida uma seleção de valsas do imortal compositor vienense. Contos dos Bosques Vienenses, Danúbio Azul, Imperador, Rosa do Sul e Sangue Vienense foram as páginas escolhidas por Peter Kreuder para elaborar este seu arranjo pianístico.

Propaganda de um lançamento de Peter Kreuder em 1943
O estilo de Peter Kreuder é sempre aquele, agradando a alguns e irritando a outros. De nossa parte, gostamos muito do seu arranjo da página de Custódio Mesquita, Rosa de Maio, gravada há algum tempo, como se sabe, por Carlos Galhardo. Já A Canção da Primavera, neste seu arranjo, até a metade da gravação é suportável. Daí por diante é de uma monotonia enervante.

Dunga
Os que apreciam valsas vienenses, porém, não devem perder o disco da seleção de valsas de Strauss.

* Emilinha Borba, que muitos cronistas radiofônicos não compreendem a razão de sua popularidade, gravou para a Continental mais um disco em que são apresentados dois sambas: Jurei, de Nássara e Dunga, e Boa, de Marília Batista e Wilson Batista. Temos a impressão de que Emilinha, desta feita, não foi muito feliz na escolha das composições, razão porque nos proporcionou duas faces bem fraquinhas. Jurei, com alguma boa vontade, pode ser aceito. Boa, entretanto, é de uma inexpressividade à toda prova.

* Garoto, o admirável solista de bandolim, voltou a comparecer ao suplemento Odeon do corrente mês, nas páginas de Benedito Lacerda e José Ramos, Dinorá, e de Atílio Bernardini, Beira Mar.

Garoto
O valor artístico de Garoto todos já conhecem, através de suas atuações pelo rádio ou pelas suas gravações anteriores. Neste seu disco, admiramo-lo mais na face de Dinorá, dada a movimentação do choro, que dá ensejo a que o solista, em vista das dificuldades da composição, demonstre a sua técnica, segura e perfeita. Todavia, na valsa-choro de Atílio Bernardini, Garoto deixa transparecer a sua fina sensibilidade, através de uma interpretação digna das melhores referências.

* Caco Velho, apesar de muitos não compreenderem o seu estilo, é um dos valores do nosso rádio que conta com elevado número de fãs. É que ele criou uma forma de cantar, diferente de qualquer outro sambista. Quase sempre, no final das suas interpretações, ele transforma sua voz numa autêntica cuíca, realizando verdadeiros malabarismos vocais. Seus fãs se deliciam. Os que acham isso estranho, blasfemam!

Caco Velho
O aplaudido vocalista colored vem de gravar para a Continental dois sambas: Por um Beijo Teu, de Ciro de Souza, e Nêga Mentirosa, de Mário Sena e dele próprio. Secunda-o Robledo e seu “Sete de Ouros”. Em ambas as faces Caco Velho canta de acordo com o seu estilo, dando, no final, o seu toque pessoal, transformando a voz em cuíca. Um disco, portanto, recomendável aos fãs de Caco Velho.

George Melachrino
Na foto: George Melachrino, o festejado regente e orquestrador, cujo conjunto é dos mais apreciados em todo mundo, terá mais uma de suas gravações editadas pela Victor. Os números constantes desse disco são os seguintes: Clopin-Clopant, de Cocquatrix, gravado já por uma porção de artistas de renome, como Jean Sablon, Yves Montand, Frank Sinatra, Jean Cavall, Charles Trenet; e Sonho de Valsa, famosa composição de Oscar Strauss.

Como sempre, as orquestrações de Melachrino, de ambas as páginas, são admiráveis, dando-lhes colorido novo, moderno, que agrada o nosso sistema auditivo.

Diário da Noite, 23 de setembro de 1950

TRÊS VETERANOS

Hugo Del Carril, Libertad Lamarque e Mercedes Simone são, como se sabe, três nomes dos mais prestigiados e antigos da radiofonia argentina. O renome de que desfrutam dá ensejo a que seus discos, especialmente as novidades, sejam procurados com avidez pela legião de fãs que granjearam em todo o mundo. Entretanto, gravam, ultimamente, relativamente pouco. Especialmente Mercedes Simone que, fazia tempo, não figurava em qualquer suplemento de novidades em disco. Chegou-se mesmo a pensar que, enfastiada da vida artística, resolvera recolher-se à vida particular conquistara com sacrifício, mas prazerosamente.

Tal não se deu, entretanto. Mercedes Simone reapareceu no disco, através do suplemento Continental do corrente mês, cantando dois magníficos tangos: El Piel de Jazmin, de Marianito Mores e José M. Contursi, e A Media Luz, velho tango de Edgardo Donato.

A voz de Mercedes Simone é sempre a mesma. Não mudou nada. O estilo, as inflexões vocais, a sua característica sensibilidade interpretativa não sofreram qualquer alteração, apesar da longa ausência do mundo do disco. Em ambas as faces da cera, a veterana vocalista portenha se porta à altura do seu renome, especialmente no tango A Media Luz, onde parece estar mais à vontade.

Mercedes Simone
O conjunto orquestral responsável pelo acompanhamento foi a típica de Emilio Brameri, através de orquestrações bastante interessantes, elaboradas com muito bom gosto e para ressaltar a bonita voz da solista.

O disco em questão, portanto, marca o feliz retorno de Mercedes Simone aos suplementos nacionais, de gravações.

A Victor, por sua vez, nos oferece mais um disco de Hugo Del Carril, o moço que deveria ser o sucessor de Gardel. Oferece-nos ele El Porteñito, tango de C. Pesce e A. Polito, e Adiós Muchachos, antiga página de J. Sanders e C. Vedani.

Hugo Del Carril – temos ressaltado mais de uma vez – é dono de um bonito timbre vocal. Entretanto, não sabemos por que, insiste em exagerar a vocalização, em determinados vocábulos, parecendo que canta com raiva. Esse seu exagero, possivelmente, porque ele não corrigiu a tempo o senão, é que talvez tenha prejudicado a sua ascensão ao lugar que ocupava Carlos Gardel no coração dos fãs de todo mundo.

Hugo del Carril
Gostamos mais da sua interpretação do tango Adiós Muchachos. Entretanto, na face de El Porteñito há uma flauta na orquestra que nos chama, particularmente, a atenção.

Também Libertad Lamarque, que conta tantos admiradores no Brasil, está presente no suplemento Victor para outubro, cantando os seguintes números: La Cieguita, tango de Ramuncho e K. Lais, e Los Dos Arbolitos, canção de Chucho Martinez Gil.

Todos conhecemos o quilate artístico de Libertad. Assim, ela só poderia nos oferecer dois números cuidados e muito bem interpretados. La Cieguita, como o próprio nome sugere, conta a história triste de uma jovem privada da visão, mas que ama... Todo o sentimento imposto pelos autores à partitura foi apreendido pela artista e transmitido com arte e ternura. A particularidade da face oposta, Los Dos Arbolitos, é que Libertad, quase ao fim da gravação, canta em dueto com ela mesma, tornando o disco mais interessante ainda.

Libertad Lamarque
Pelo exposto, os amantes da música argentina, especialmente os fãs dos três renomados cartazes, têm aí vários números que podem interessá-los.

Na foto: O novo Trio de Ouro, ao que parece, está com vontade de reconquistar mesmo o antigo prestígio do conjunto. Já nos tem dado boas gravações e, agora, através do suplemento Victor de outubro, volta a comparecer com outro disco, em que apresenta o samba-canção de Vicente Paiva e Jaime Redondo, Ave Maria, e Teu Exemplo, também um samba-canção que leva as assinaturas de Herivelto Martins e David Nasser. Neste último samba, Herivelto volta a insistir no lamentável caso surgido entre ele e Dalva de Oliveira. Comentaremos, em próxima nota, esta última produção do novo Trio de Ouro.

Diário da Noite, 22 de setembro de 1950

HISTORIETA INFANTIL

Coube à Continental iniciar uma série de gravações de histórias infantis, especialmente teatralizadas, de autoria dos mais renomados autores especialistas no gênero. Levou ao disco, assim, Branca de Neve e os Sete Anões, A História da Formiguinha e outros, estando em preparo A Gata Borralheira. A iniciativa constitui um sucesso. Tanto é assim que a própria empresa não tem em estoque, por esgotadas, qualquer das referidas gravações. É possível que algumas delas possam ser encontradas nas boas casas revendedoras. Valeu a pena, portanto, a experiência.

Agora, a Victor está se preparando para lançar, por sua vez, dentro de poucas semanas, uma historieta infantil em disco. Escolheu uma novela clássica da literatura infantil para gravar: A Galinha dos Ovos de Ouro.

Por gentileza da direção artística da etiqueta do cachorrinho foi-nos dado ouvir a prova da gravação e pudemos constatar da perfeição não apenas da parte interpretativa, que esteve a cargo do prestigioso elenco radiatral da Rádio Nacional, mas sobretudo da parte técnica, sonoplática etc. Em gravação quase toda falada é fácil notar-se o chiado provocado pelo pick-up sobre a massa, sobretudo se de má qualidade. Entretanto, não é o que acontece neste disco. Para a sua elaboração, certamente, foi preparada massa especial, de melhor qualidade, tendo sido eliminado, assim, quase que por completo, o chiado que, para uma gravação rádio-teatralizada, seria uma coisa horrorosa.

Isis de Oliveira
A Galinha dos Ovos de Ouro ocupou dois discos, ou quatro faces, de doze polegadas. Seguramente meia-hora de gostoso entretenimento, não só para os petizes mas também para os marmanjos, é o que nos oferece a gravação em referência.

O elenco da Rádio Nacional se portou de forma seguríssima e perfeita na parte interpretativa. O “Gigante”, interpretado por Orlando de Melo, está simplesmente notável em sua caracterização vocal, o mesmo acontecendo com “Luizinho”, o garotinho que roubou a “Flauta Mágica”, interpretado por Rodney Gomes. Seria cometer injustiça destacar nomes. Todo o elenco, composto, além dos elementos já citados, mais Isis de Oliveira e Samir de Montemor, na narração; Simon Morais, como a “Fada”; Suzy Kirby, como “Mulher do Gigante”; Sonia Alcoverde, na voz esganiçada da “Flauta” e, finalmente, Graziela Ramalho, fazendo a “Mãe de Luizinho”, se comportaram de forma superior, oferecendo-nos uma versão radiofônica de A Galinha dos Ovos de Ouro, muito interessante. Naturalmente, a perfeição dos intérpretes se deve à direção segura e competente de Floriano Faissal.

Os efeitos musicais estiveram a cargo de Alberto Lazzoli e foram executados por Zaccarias e sua orquestra. Aquele bonito solo de flauta deve ter sido executado mesmo pela “Flauta Mágica” da historieta.

Floriano Faissal
Não temos dúvida em augurar para a referida gravação um sucesso absoluto. Quem sabe até, já que esta historieta ocupou dois discos de doze polegadas, dará margem a que o rádio-teatro – não apenas de historietas infantis, nas o “sério” – se encaminha para o disco, tal qual está acontecendo na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, como já tivemos ocasião de acentuar.

Na foto: Um dos bons lançamentos da Columbia para o próximo mês será o disco de Frank Sinatra, no qual ele gravou, com Axel Stordahl e sua orquestra, de Tchaikowski, em arranjo especial, Apenas um Coração Solitário; e de Jerome Kern e Hammerstein II, Por Que Nasci?. O lançamento em questão vai ser feito pela Columbia nacional. Conhecemos a face de Apenas um Coração Solitário pela gravação importada e podemos assegurar tratar-se de uma das melhores interpretações do antigo ídolo das garotas norte-americanas.

Diário da Noite, 21 de setembro de 1950

OUTRO SUCESSO

Lúcio Alves é, no momento, o mais admirado intérprete de melodias populares brasileiras, do punhado de novatos que apareceu ultimamente.

Não que Lúcio seja neófito no rádio, porquanto já faz algum tempo que ele atua nas emissoras cariocas, integrante que era de um conjunto vocal já desfeito. Entretanto, começou a cantar só, relativamente há pouco tempo. Custou a descobrir a beleza de sua voz e que o seu estilo agradava em cheio o grande público.

De fato, Lúcio Alves, sobre possui um timbre vocal todo especial, criou um estilo, uma forma nova de cantar o nosso samba. Há quem afirme que ele imita Dick Farney. Entretanto, se se fizer uma comparação do estilo de ambos verificar-se-á que a assertiva não procede. A confusão, naturalmente, reside no fato de ambos não cantarem alto, preferindo vocalizar as melodias, sempre escolhidas com gosto e magnificamente orquestradas, quase aos sussurros.

A Continental vem de colocar nas revendedoras mais um disco do jovem cantor, em que ele nos oferece dois bonitos sambas: Amargura, de Alberto Ribeiro e Radamés Gnatalli e Tudo Acabou, de Gilbert Milfont e Milton de Oliveira. Trata-se de duas inspiradas composições, quer no que diz respeito à música ou às palavras. Em Tudo Acabou há um momento em que o cantor tem que transportar a voz, inesperadamente, de uma nota baixa para outra bem alta, dando a impressão de desafinação, o que não acontece, posto haver sido escrita assim mesmo para que fosse conseguido o efeito que, realmente, causa aos ouvintes e, mais, embelezando a melodia.

Lúcio Alves
Acompanha Lúcio Alves um pequeno conjunto orquestral dirigido por “Vero”, que outro não é, como já tivemos ocasião de revelar, o maestro Radamés Gnatalli, um dos mais competentes musicistas do Brasil. Muito bonito o solo de piano executado pelo próprio “Vero” que, em certo trecho, ganha destaque na feliz orquestração por ele mesmo escrita.

A face oposta Amargura, embora figure como face A, nos pareceu de nível inferior a Tudo Acabou, o que não quer dizer seja música sem qualidades. Pelo contrário. Como dissemos, ambos os sambas tiveram grande inspiração, porém, nos impressionou melhor o constante da face B do disco em apreço.

Pelo exposto, Tudo Acabou e Amargura vão constituir mais um grande sucesso de Lúcio Alves e, principalmente, da Continental, que editou o disco.


Na foto: Carmen Cavallaro, sem favor nenhum, é dos pianistas populares mais admirados em todo o mundo. Suas gravações são grandemente procuradas, sobretudo pelos espetaculares arranjos de partituras clássicas ou pelos suavizantes solos de melodias típicas de todas as nações. Suas mais recentes gravações, lançadas em disco Odeon, são: Música! Música! e Oh! Catarina, respectivamente de Stephan Weiss e Richard Fall. Acompanha-o sua própria orquestra.

Diário da Noite, 20 de setembro de 1950

NOTAS E INFORMAÇÕES

* Venâncio e Corumbá, dupla de caipiras pertencentes ao cast das Emissoras Associadas do Rio de Janeiro, foi contratada pela Capitol, tendo já gravado vários números de sua própria autoria: Tempo de Molecote, Lembrando o Sertão, Baião de Viola e Cocota. Os três primeiros são baiões e o último rancheira.

* A propósito da já lendária melodia de Anton Karas, O Terceiro Homem, à qual fizemos referência em nota anterior, soubemos que a gravação da Victor foi feita pela famosa orquestra de Freddy Martin, que introduziu em seu conjunto várias cítaras. A novidade desta gravação de O Terceiro Homem, na versão de Freddy Martin, é que há um refrão vocal, coisa inexistente nas demais gravações da melodia em questão.

* Orlando Silveira, um dos mais competentes acordeonistas da Paulicéia, pertencente ao regional de Rago, levou ao disco o choro Indeciso e a valsa Lembrança do Passado, em gravações Continental. Dada a popularidade de Orlando e a felicidade com que foram feitas as gravações, é de augurar-se grande sucesso a esse seu disco.

Venâncio e Corumbá
* O único disco mexicano do suplemento Victor para outubro é de responsabilidade de Tito Guízar. As melodias que ele nos oferece têm os seguintes títulos: Solo Tú e Mis Flores Negras. São dois boleros, cujos autores são, respectivamente, Agustín Lara e F. Moreno.[1]

* Zé Gonzaga, irmão de Luiz, “o rei dos baiões”, gravou para a Odeon o choro Disco Voador, de Abelardo Barbosa e José Gonçalves, e o balanceio Alecarina Bonita, de José Amâncio e José Januário. Como a família dos Gonzaga é tradicionalmente da sanfona, Zé não nega a raça. Toca sanfona como gente grande, especialmente na face do balanceio.

* Para os que gostam de solos de pistão a Todamérica tem programado em seu primeiro suplemento um disco gravado por Pedroca, interpretando os chorinhos Ando Preocupado e Nena.

Abelardo Barbosa, compositor de "Disco Voador", em parceria com José Gonçalves. O "Chacrinha" que o Brasil conheceu e amou durante décadas ainda estava no embrião

* Uma novidade irá apresentar a Victor dentro de algumas semanas: Levou aos disco aquela interessante novela infantil que deliciou a nossa infância, A Galinha dos Ovos de Ouro. Por gentileza da gravadora em questão ouvimos a prova e ficamos bem impressionados. O elenco de rádio-teatro da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, foi o responsável pela interpretação. Em próxima nota teceremos considerações sobre esse disco.

* Alberto Rabagliati, ex-vocalista do conjunto Lecuona Cuban Boys, ultimamente gravando muito, levou à cera dois conhecidos sucessos: La Vie En Rose e La Mer. Gravações Cetra.

Waldir Azevedo
* Um cavaquinho tocado com maestria é uma delícia ouvir-se, especialmente quando dedilhado por um Waldir Azevedo, que já nos deu várias gravações de alto padrão, no gênero. Agora, ele vem de gravar para a Continental outro disco que encerra dois magníficos choros, um dos quais, Quitandinha, constitui um autêntico espetáculo. Vai por mim, choro de Francisco Sá e Risadinha do Pandeiro, faz parte do verso do disco.

Na foto: Safira, a ex-vocalista da orquestra de Carioca, já gravou diversos discos para a Odeon, cada um melhor que o outro. Apesar de já atuar há algum tempo no rádio, só agora, através dos seus discos, começou a ser notada. Tem uma voz bonitinha e canta com noção de ritmo e com muito sentimento. Suas últimas gravações, constantes do disco a ser lançado talvez esta semana, são: Dance o Maracatú, de Jorge Tavares e Geraldo Medeiros, e Nosso Lar, samba de Luiz Soberano e Jorge Gonçalves.


[1] Moreno foi o arranjador. A canção é de Júlio Flórez.

Diário da Noite, 18 de setembro de 1950

UMA SINFONIA

Num dos seus recentes suplementos, a Columbia incluiu uma gravação da Orquestra Sinfônica de Filadélfia, sob a direção de Bruno Walter, da Sinfonia em Fá Maior, nº6, opus 68, conhecida por Pastoral, de Beethoven. A gravação foi feita em cinco discos Columbia ingleses, de 12 polegadas, para mudança automática, que estão enfeixados em luxuoso álbum.

Os cinco movimentos da mencionada sinfonia estão assim divididos: 1º) – Allegro Ma Non Troppo (Alegres impressões suscitadas com a chegada ao campo); 2º) – Andante Molto Moto (Cena à beira de um regato); 3º) – Allegro (Alegre reunião de camponeses); 4º) – Allegro (Trovoada e Tempestade); 5º) – Allegretto (Canto dos pastores: Sentimentos de alegria e gratidão depois da tempestade).

A Sinfonia Pastoral, informa-nos Felix Borowski, foi composta em 1808 e executada pela primeira vez a 22 de dezembro desse mesmo ano, no Theater an der Wien num concerto dirigido pelo próprio Beethoven, em cujo programa só figuravam composições suas. Nos programas impressos distribuídos no concerto, esta Sinfonia figurava com o título de Memórias da Vida Campestre. Nos rascunhos, ela recebeu o título de Sinfonia Característica. Mais abaixo, vinha uma nota explicativa: “O ouvinte deve compreender as situações por si mesmo. Mais expressão de sensações do que de pinturas”. E acrescentou: “Quem já teve uma idéia da vida campestre será capaz, sem muitas indicações, de acertar com o que o autor quer dizer”.

Bruno Walter
A Pastoral é, com efeito, a expressão mais primorosa e magistral desse sentimento de felicidade e contentamento que o amante da natureza – e Beethoven era dela um grande apaixonado – experimenta numa excursão pelo campo. Os motivos usados são, aparentemente, os mais simples e demonstram a evolução de uma poderosa celebração.

Poderíamos, com Borowski, descrever os movimentos da grande Sinfonia. Não o fazemos por absoluta falta de espaço. Entretanto, cumpre ressaltar a execução da Sinfônica de Filadélfia, seguindo a batuta de Bruno Walter. Trata-se de uma interpretação apaixonada, impregnada de poesia da mais apurada sensibilidade. A capacidade da regência de Bruno Walter, nesta gravação, se apresenta em toda a sua exuberância.

Leopold Stokowski
A gravação foi feita nos Estados Unidos, em 1946, depois, portanto, de a mesma orquestra haver gravado a mesma Sinfonia, com Leopold Stokowski na regência, para fazer parte do filme Fantasia, de Walt Disney, atualmente em reprise nas telas dos nossos cinemas. É uma gravação de alta qualidade e ótimo material, aliás, comum nas gravações da Columbia inglesa, quase isenta de chiados e estalidos provocados por bolhas, comuns nos discos nacionais, possibilitando, assim, uma audição límpida e fiel.

Na foto: Francesco Albanese, sem favor nenhum, é um dos mais perfeitos intérpretes da canção italiana. Dono de uma tonalidade vocal de grande melodiosidade e extensão, interpreta as canções napolitanas de forma admirável e a elas dando um toque todo pessoal. O prestigioso tenor peninsular conquistou tamanha popularidade entre nós que a Cetra, da qual é artista exclusivo e cujas gravações são distribuídas no Brasil pela Continental, inclui em todos os seus suplementos vários discos seus. Em sua última lista, por exemplo, a aludida etiqueta italiana apresenta, na voz de Francisco Albanese, as seguintes canções napolitanas: Passioni, Maria Cristina, O Sole Mio, Surdato Namurato, A Canzone e Napule, Napule Bello, Adio Mia Bella Napoli, Mamma Mia Che vó Sapé, Pecché, Mandulinata a Surriento, Finestela Senza Sole e Piscatore e Pussileco.

Diário da Noite, 16 de setembro de 1950

BAIÕES

A Victor vem de colocar, nas casas revendedoras da cidade, dois discos em que são apresentados quatro números, três dos quais são baiões. As composições são, todas elas, de autoria dos criadores do baião, ou seja, dos responsáveis pela sua popularidade, já que o baião teve sua origem no folclore nordestino: Humberto Teixeira, José Dantas e Luiz Gonzaga.

Um dos discos em referência foi gravado por Luiz Gonzaga. Numa das suas faces vamos encontrar Xanduzinha, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, e A Volta da Asa Branca, de José Dantas de parceria com o “Lua”. Xanduzinha é um baião bastante movimentado, estando por isso mesmo, Luiz Gonzaga, bastante à vontade. Será, por isso, mais um dos seus grandes sucessos.

Já a toada A Volta da Asa Branca, embora possua uma letra muito bonita, característica, nos pareceu um tanto forçada. Ao invés de uma toada sertaneja, característica do nordeste, nos dá impressão de uma canção de cowboy americano. Mas, é Luiz Gonzaga quem canta e seus fãs – que são aos milhares – prestam mais atenção nele, na sua voz, e na sua sanfona do que na música propriamente dita. Pelo exposto, o sucesso desse disco vai ser mais pela face de Xanduzinha, pelo menos nas capitais. No interior é possível que A Volta da Asa Branca desperte maior interesse.

O outro disco foi gravado pelo conjunto vocal Quatro Ases e Um Coringa. Encerra dois baiões muito conhecidos: Paraíba e Baião de Dois, ambos assinados pela dupla Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira. Paraíba é o baiãozinho do momento. Todo o mundo o cantarola. E sua popularidade, agora, será maior, em conseqüência da magnífica interpretação do festejado conjunto.

José Dantas e Luiz Gonzaga
Baião de Dois, um dos grandes sucessos de Carmélia Alves, ganha novo colorido na interpretação do conjunto em apreço, sendo muito interessante a maneira como vocalizam, revezando-se, entre si, nos solos.

Embora a etiqueta do disco nada diga a respeito, a título de curiosidade chamamos atenção para o acompanhamento, em ambas as faces. Nota-se uma sanfona muito bem dedilhada que, em determinado trecho, executa solos dignos dos melhores elogios. Essa sanfona é de Luiz Gonzaga, que colaborou com os Quatro Ases e Um Coringa na feitura das gravações, colaborando ainda no coro, onde se nota nitidamente a sua voz.

Aí estão, portanto, para os apreciadores do baião, dois discos que merecem atenção.



Na foto: Os Quatro Ases e Um Coringa levaram ao disco dois baiões, aliás, já gravados por outros artistas e que constituíram retumbantes sucessos: Paraíba e Baião de Dois, ambos assinados pela prestigiosa dupla responsável pela divulgação do novo ritmo, Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga.

Luiz Gonzaga, por sinal, embora a etiqueta da Victor nada diga a propósito, colaborou com o festejado conjunto, em ambas as faces, cantando no coro e dedilhando a sua endiabrada sanfona.