quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Diário da Noite, 9 de setembro de 1950

OBRAS CLÁSSICAS

Eis algumas novidades em gravações de páginas clássicas:

A Deutsche Grammophon, da Alemanha, como o próprio nome está indicando, exportou para o Brasil várias gravações de música seleta, sendo de destacar-se, dentre outras, a da conhecida página de Sibelius, Valsa Triste, do drama Kuolema, na execução da Orquestra Niedersachsen, de Hannover, sob a direção de H. Thierfelder. Na outra face desse disco vamos encontrar, na execução da orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, sob a regência de Eduard van Beinum, a valsa da Suite de Ballet, de Max Reger, Valse D’Amour. Enquanto a conhecida página de Sibelius prima, como se sabe, pelas suas sugestões mórbidas, soturnas e melancólicas, a partitura de Max Reger, ao contrário, é uma composição suavizante e de bonita melodia.

Em discos da mesma gravadora germânica fomos encontrar a grande obra de Ottorino Respighi, Festas Romanas que, aliás, é o último trabalho do seu Ciclo Romano. A obra é grande, constando a gravação de quatro discos de doze polegadas. Os quatro movimentos da Feste Romane estão assim divididos: I) – Circenses; II) – Giubileo; III) – L’Ottobrata; IV) – La Befana. A execução é da Orquestra Filarmônica de Berlim, dirigida pela batuta de Victor de Sabata, diretor musical do Scala de Milão. Por falta de espaço, deixaremos de comentar essa gravação, prometendo fazê-lo, entretanto, na primeira oportunidade.

Casa Roberto Gordon
Casa Brenno Rossi
A mesma Deutsche Grammophon nos remeteu um disco onde se acha gravada, em uma das faces, a dança Tarandula, que é, precisamente, o último número da suíte nº2, de Bizet, A Arlesiana. No outro lado vamos encontrar, de Berlioz, a Marcha Húngara, da ópera Condenação de Fausto. A execução orquestral, em ambas as faces, coube à Orquestra do Concertgebouw, de Amsterdã, sob a direção de Eduard van Beinum.

Cumpre observar a alta qualidade das gravações em apreço, absolutamente alheias de chiado, facultando, assim, uma reprodução precisa, que nos permite sentir toda a exuberância sonora dos famosos conjuntos.

Por seu turno, a Columbia americana, através dos seus discos de longa gravação, está reimprimindo as mais famosas gravações clássicas do seu repertório, entre as quais as das páginas de Bach, para comemorar o bicentenário do grande mestre, decorrido há poucas semanas. Aliás, no que diz respeito às gravações microgroove, é estranhável que as revendedoras de São Paulo, salvo as honrosas exceções, ainda não tenham resolvido importá-las. Dissemos “salvo as honrosas exceções” porque, na verdade, já encontramos em duas casas tais gravações. Mas foram importadas “para amigos...”. Entretanto, nas revendedoras do Rio e de outras capitais sul-americanas já se pode comprar os cobiçados microgroover’s records. Vamos aguardar, portanto, a resolução ou das revendedoras ou dos representantes, nesta capital, da Columbia, da Victor, da Decca, quer nos Estados Unidos ou da Inglaterra, de colocar em São Paulo os discos de longa gravação e os respectivos tocadores especiais, porquanto o número de vitrolas com capacidade de várias velocidades é muito reduzido e poucas as pessoas que já possuem o pequeno adaptador.

Império Argentina
Mas que essa espera não seja longa, porquanto é enorme o interesse dos discófilos paulistas, amantes do clássico, e no novo e prático sistema de gravações.

Na foto: Império Argentina, que realizou, recentemente, uma vitoriosa temporada ao microfone das Emissoras Associadas, teve a satisfação de ver boa parte de seus discos reeditados pela Odeon, muitos dos quais – os melhores – eram dificilmente encontrados nas revendedoras, por esgotados. Do suplemento especial que a aludida gravadora editou para as gravações do cartaz hispano-argentino, há uma novidade: Que Me Cumplias Tu, uma canção típica de Espanha.

Diário da Noite, 8 de setembro de 1950

TÓPICOS E INFORMAÇÕES

As gravadoras americanas, ultimamente, estão se dedicando à produção de álbuns especializados em músicas de jazz. A Columbia, por exemplo, vem de distribuir o seu Class Jazz, com gravações de Ted Lewis e seu conjunto. Por sua vez, a Decca edita um espetacular álbum de jazz clássico, que faz parte de sua coleção, recém-iniciada, intitulada Red Nichols Classics, constituindo este o segundo volume da série. Ainda a Decca nos oferece outro álbum, no gênero, sob o título de Cab Calloway, que, como o próprio título está a indicar, é composto de gravações da famosa orquestra de Cab Calloway. – A Continental colocará nas revendedoras, dentro de poucos dias, várias gravações de bom padrão, como a de Jorge Goulart, interpretando 25 de Abril, fox de Frazão e Roberto Martins, e Lírios do Campo, samba de Ataulfo Alves e Peter Pan. O conjunto de Cópia é o responsável pelo acompanhamento, aliás, muito interessante. – O disco de Ademilde Fonseca e Jorge Veiga, por sua vez, nos apresenta a voz de Ademilde mais interessante, porque ela não vocaliza com aquela sua intensidade característica, mas sim cadenciadamente, demonstrando, assim, o seu bonito timbre vocal. Carne Seca com Tutu é o samba que ela canta, juntamente com Jorge Veiga. Na outra face, apenas Jorge intervém, porquanto é uma valsa, Anúncio, de Bené Machado, sendo secundado pelo conjunto de Geraldo Medeiros.

Zé Fortuna, Piracicaba e Coqueirinho
– Dentro de poucos dias o público vai tomar contato com vários artistas caipiras autênticos. A Elite e a Continental irão apresentá-los através dos seus discos. A primeira nos dará o “Trio Floresta”, composto de Piracicaba, Zé Fortuna e Coqueirinho, cantando Lágrimas de Mãe, que conta a história de um pracinha que morreu na Europa, e Rancheiro Triste. A segunda nos oferecerá a dupla Zé Carreiro e Carreirinho, cantando o cururú Canoeiro.

Araci Costa
– A Todamérica, dentre os seus lançamentos próximos, marcará a estréia de Araci Costa, uma pequena de talento, cantando dois baiões, Obalalá e Rio Vermelho. – Novos cartazes da Elite: Eduardo Nunes, vocalista, e Jacob Thomas, solista de bandolim. Além de Alba Mery, bolerista, que nos vai proporcionar as seguintes gravações: En Revancha, bolero de Agustín Lara, do filme A Deusa Ajoelhada; Franqueza (mambo), de Mario Fernandez Porta; Contigo, bolero de Claudio Estrada; e Ni que Si, Ni Quizá, Ni que No, um mambo de Alfredo Gil, que constitui uma resposta aos boleros Dime que Si, Quizás, Quizás, Quizás e No, No y No. – Em sua série de historietas infantis a Continental irá lançar, dentro em pouco, a Gata Borralheira. Branca de Neve e os Sete Anões vai ser gravada. – O suplemento Victor para outubro sairá do prelo na próxima semana. – Idem, o da Odeon. – Sobre eles teceremos considerações.

Lucienne Delyle
– A Continental, que organizou uma série de gravações nas vozes dos nossos maiores poetas, dizendo os seus mais representativos poemas, vem de gravar a voz do Dr. António Botto, um dos mais inspirados amantes das musas. – Interessante álbum exclusivamente com melodias de Noel Rosa será editado pela etiqueta dos três sininhos. As gravações serão feitas por Sílvio Caldas e Aracy de Almeida. Bonita homenagem ao imortal compositor de Santa Isabel.

Na foto: Lucienne Delyle, uma das mais expressivas vocalistas de Paris, atualmente no Rio de Janeiro, é artista exclusiva da Columbia. Suas mais recentes criações para a famosa etiqueta foram C’est Un Cars, canção de Pierre Roche, e Au Soileil de Mai, de Aimé Barelli, também uma canção. A orquestra que assiste Lucienne, neste disco, é a de Aimé Barelli. 

Diário da Noite, 6 de setembro de 1950

O “REI DA VOZ”

Dentro de poucos dias a Odeon colocará nas casas revendedoras um disco de Francisco Alves em que o “rei da voz” gravou Boa Noite, Amor, valsa de José Maria de Abreu e Francisco Mattoso; e Na Estrada do Bosque, fox de C. A. Bixio, numa versão de Humberto Teixeira.

Chico Alves já gravou, faz um bocado de tempo, a bonita valsa de José Maria de Abreu. Foi uma bela gravação, que aliás ainda pode ser encontrada nas boas casas do ramo, se o interessado conseguir topar com um empregado de bons bofes e que se disponha a procurá-la. Chico, então, estava em plena forma. Sua voz era, como ele, jovem e possuidora de toda a exuberância que o tempo, aos poucos, mas paulatinamente, vai esgotando. O Boa Noite, Amor, da primeira gravação, assim demonstra o “rei da voz” na plenitude do seu reinado. A sua gravação recente, entretanto, embora boa, isto é, de bom padrão, é, porém, inferior à primeira, no que diz respeito à voz e à interpretação. É bem verdade que há uma interessante orquestração do maestro Oswaldo Borba. Mas, apesar disso, preferimos o primeiro Boa Noite, Amor. Chico Alves, apesar dos seus 52 anos, ainda é senhor de sua voz. Entretanto, observa-se que nas notas altas ele já se esforça bem mais. Nos últimos sulcos da gravação, quando o ouvinte espera um daqueles agudos que costumava dar – e tem-se a nítida impressão de que ele ia realizar o feito – tem uma tremenda decepção ao ouvir que ele cai cá embaixo, na outra oitava.

Já a face oposta nos causou melhor impressão. A Estrada do Bosque, fox responsável pela fama de Gino Bechi, então conhecido apenas pelos amantes do lírico recebe novo colorido na bonita voz de Chico e, principalmente, pelas palavras em português, de Humberto Teixeira. É fora de dúvida que tão logo o disco inicie a rodar pelas vitrolas da cidade, todo mundo irá cantarolar A Canção do Bosque, em português. Por seu turno, a homogênea orquestra de Oswaldo Borba executa o acompanhamento com a devida discreção, dando realce ao vocalista, ganhando destaque ao realizar o solo entre os refrãos.

Radamés Gnatalli
Para os discófilos cumpre lembrar que existem cinco gravações da valsa de José Maria de Abreu: com Pedro Vargas, com Sílvio Caldas, por um conjunto orquestral sob a regência de Radamés Gnatalli e, finalmente, as duas do próprio Francisco Alves, a segunda das quais vimos de comentar.

Na foto: Radamés Gnatalli é um dos mais competentes regentes e orquestradores do país. Dono de apurada sensibilidade e fino gosto, suas orquestrações constituem, na matéria, verdadeiras obras-primas. Muita gente o julga estrangeiro, em virtude do seu sobrenome. Entretanto, o maestro Gnatalli é brasileiro, ou, mais precisamente, gaúcho. Pianista de largos recursos, não resistiu ao desejo de levar ao disco o som de um piano acionado pelos seus ágeis dedos. E assim, gravou recentemente, para a Continental, sob o pseudônimo de “Vero”, o choro Tocantins, de José Rebelo da Silva, e a valsa Madrigal, de Aurélio Cavalcanti. Os que apreciam solos de piano não devem deixar de ouvir esse bonito disco.

Diário da Noite, 5 de setembro de 1950

NOTAS E NOTÍCIAS

Notícias procedentes dos Estados Unidos dão conta de que um samba bem brasileiro se transformou numa autêntica coqueluche para os norte-americanos. Trata-se do samba Cadê a Jane?, que leva as assinaturas de Wilson Batista e Erasmo Silva, gravado em disco Alba por Fernando Álvares.[1] – A propósito de Cadê a Jane?, recorda-se que ele foi gravado, não faz muito tempo, pela Continental, com o conjunto vocal Os Cariocas. – A Decca vem de gravar um disco por Eddie Condon e seu conjunto, no qual vamos encontrar Charleston e Black Botour. Como se sabe, Charleston e Black Botour foram os ritmos que deram alegria aos nossos maiores ali por 1920, mais ou menos. E Condon, assim nos proporciona duas agradáveis faces, apesar dos ritmos espalhafatosos das composições. Muito curiosa a vocalização de Peggy Ann Ellis, que, diga-se de passagem, não é uma grande vocalista, secundada pelos demais componentes do conjunto, Wild Bill Davison, Vernon Brown, Peanuts Huck e outros. – No suplemento Columbia do corrente mês reapareceu o nome de Maria Alma com dois interessantes números: Tu Retrato, de Agustín Lara; e Que Te Has Pensado?, de autoria da própria Maria Alma. – Por seu turno a Odeon volta à carga com Fernando Albuerne cantando Cavaleiros do Céu, a mais que batida composição de Stan Jones; e Callejera, de autoria de Carlos Crespo, autor de HipócritaSuicídio e outros sucessos. – Luiz Gonzaga, ao que se propala, vai realizar uma demorada excursão pelo país e a renda líquida dessa campanha – porque será uma autêntica campanha – será empregada na construção de escolas e lactários no sertão do nordeste. Belo gesto do simpático “Lua”.

Luiz Gonzaga, Diário da Noite, 2/9/50
Evaldo Rui (esq.) e Fernando Lobo (dir.), autores
de "Chofer de Praça", e Gonzagão sentado ao piano
Foto do blog de Luis Nassif
– A propósito de Luiz Gonzaga sabe-se que os direitos autorais por ele recebidos no último trimestre foram de 158 mil cruzeiros.

– Têm sido tantos os pedidos recebidos pela Victor, de gravações de Luiz Gonzaga, que a firma distribuidora teve que organizar um sistema de inscrições ou filas para tais pedidos. Para se ter uma idéia da verdadeira coqueluche que são as gravações do “Lua”, basta dizer que em três dias, foram vendidos mais de dez mil discos da sua última criação, Chofer de Praça. – Novos cartazes nos promete a Elite nos seus lançamentos de outubro. Ao que nos assegurou o Alberto Ergas, diretor artístico da etiqueta da rua Major Quedinho, vão constituir verdadeiras bombas atômicas, como o foram as gravações de Neyde Fraga. – O grande Louis Armstrong gravou para a Decca La Vie En Rose e C’est Si Bon. Armstrong e seu pistão, são os mesmos de sempre, sem novidades.

Na foto: Lolita Torres, como se sabe, é uma cantora argentina, especializada ba vocalização de melodias de Espanha. A Odeon já prensou diversos discos seus e, em seu suplemento do corrente mês, programou duas “faces” suas: o passodoble de José Maria Palomo, com palavras de Salvador Valverde, La Cortijera de Jerez; e o tanguillo de Rodrigo e Balsano,[2] El Barquito. Ouvimos a prova e constatamos de bom padrão do disco. Gostamos mais do passodoble, onde Lolita está mais à vontade e a composição de acordo com o seu timbre vocal.

Casas Santiago e Sertaneja


[1] A referência é obscura.  “Disco Alba” talvez seja do efêmero e pouco conhecido selo Albatroz; quanto a Fernando Álvares, parece ser o mesmo que fez sucesso nos anos 30. Como sua carreira secou no início da década seguinte e não há registro dessa gravação em lugar nenhum, a questão fica por enquanto insolúvel.
[2] Na verdade uma pessoa só, Rodrigo Bálsamo.

Diário da Noite, 4 de setembro de 1950

EXPLICAÇÃO IMPRESCINDÍVEL

Já afirmamos uma vez e tornamos a reiterar a afirmativa nessa conjetura: não temos a pretensão de ser críticos. Nosso objetivo, com esta despretensiosa coluna de discos, outro não é senão examinar as gravações lançadas pelas diversas firmas e sobre elas tecer algumas considerações, demonstrando ao leitor, que gosta de disco, quais os lançamentos que deve ou quais os que não deve incluir em sua estante. Assim, a fim de orientar o público, além da nossa opinião sobre as gravações, compilamos pequenas informações sobre o que vai no mundo dos discos, objetivando trazer sempre em dia as notícias relacionadas ou diretamente presas ao movimento discófilo.

Temos procurado ser absolutamente imparciais em nossas apreciações. Ao analisarmos uma gravação não olhamos a sua etiqueta. Se a gravação merece aplausos não lhe regateamos, seja o seu selo de uma grande gravadora ou seja da mais modesta. O mesmo acontece com as gravações vulgares, que não são poucas, muitas das quais não merecem sequer um comentário, mesmo desfavorável. Assim, nos limitamos apenas a noticiar o seu aparecimento.

Ao que parece, entretanto, o nosso trabalho não está sendo bem compreendido. Pelo menos, em determinada gravadora. E precisamente a empresa sobre cujos discos temos tecido, por merecerem, as mais favoráveis apreciações. Nem tudo, entretanto, o que ali se grava é de bom padrão. De modo que, a par dos comentários favoráveis, não temos aplaudido outras iniciativas suas. Isso levou um mentor da aludida firma gravadora a nos procurar para nos fazer sentir que o nosso trabalho “não o estava satisfazendo”. Argumentou que a sua nova fábrica, sendo “a maior da América do Sul” (é opinião dele), não poderia compreender por que temos proporcionado aos seus lançamentos tratamento igual aos das demais, cujos produtos ele considera inferiores ao da sua firma.


Como se vê, o aludido produtor não apreendeu bem as finalidades desta seção. Por que haveríamos de olhar com mais simpatia aos seus discos? Esta coluna existe em função do disco e não das gravadoras. Por que, por exemplo, haveríamos de tecer considerações favoráveis a um seu lançamento que, positivamente, não as merece e ao qual, como sugerimos, dada a letra inconveniente da composição, deveria ser colocado, em lugar bem visível, os dizeres “impróprio para menores e senhoritas”? Demais, que nos perdoe a franqueza o aludido mentor, pouco se nos dá se os nossos comentários desfavoráveis não lhe agradem. Não temos, com ele ou com qualquer outra firma gravadora, nacional ou estrangeira – e nem poderíamos ter – quaisquer compromissos.

Rádio Tupi - Cancioneiro do Brasil, 1950

O único compromisso que temos é com os leitores do DIÁRIO DA NOITE. A eles foi que prometemos informar com absoluta imparcialidade, sobre o padrão das gravações, embora, muitas vezes, tenhamos que desgostar ou “não satisfazer” artistas verdadeiros, compositores e músicos, que merecem toda a nossa admiração, e até – e por que não? – os próprios generais da indústria do disco. Que fique esclarecido, portanto, de uma vez por todas: não temos preferência pelos produtos desta ou daquela empresa gravadora. Todas elas, pequenas ou grandes, terão o mesmo acolhimento por esta coluna, isto é, serão tratadas no mesmo pé de igualdade.


Edú da Gaita
Se o que produzirem for bom, aqui estaremos para aplaudir. Se mau, não teremos dúvida em dizê-lo com a mesma sinceridade e independência, de acordo, aliás, com o compromisso que assumimos, repetimos, com o público.

Na foto: Eduardo Nadruz, ou “Edú”, como é conhecido, pode ser incluído no rol dos mais perfeitos virtuoses da gaita, ou harmônica de boca. Tendo perfeita noção de sua arte e possuidor de um bom gosto musical, aliada a uma apurada sensibilidade, “Edú” escolhe bonitas páginas para levar ao disco, satisfazendo, assim, as exigências dos seus incontáveis admiradores, não só no Brasil, como de todo o mundo, especialmente dos países sul-americanos. Sua última gravação para a Continental, da qual é artista exclusivo, e que por sinal já foi objeto de considerações neste canto de coluna, encerra duas interessantes páginas: Arabescos e Fumaça Nos teus Olhos.

Diário da Noite, 2 de setembro de 1950

TÓPICOS E INFORMAÇÕES

Dentro de alguns dias começarão a aparecer, nas vitrines das revendedoras os discos da nova etiqueta “Toda América”. Como se sabe, “Toda América” é uma nova marca subsidiária da Continental, isto é, os seus discos serão prensados e distribuídos pela organização Byington. – A propósito da nova etiqueta, apresentará ela uma inovação em sua etiqueta: em seu selo, além do número correspondente à gravação, o título da música e o nome do intérprete ou da orquestra, terá ainda a fotografia do artista. Se se tratar de um conjunto, terá a foto do chefe. Há casos em que a etiqueta não apresentará foto alguma, mas o globo terrestre demonstrando os contornos de “Toda América”. – Dentro de poucos dias, a Capitol entregará às revendedoras o primeiro disco de Stellinha Egg. Trata-se de uma maracatu estilizado, de autoria de Geraldo Medeiros, que recebeu o título de Bu-qui-ti-bum, cujo arranjo é de autoria de Lyrio Panicalli. – Jorge Veiga, com a sua estranha e original voz, vem de gravar para a Continental uma produção de Ary Barroso e Amâncio[1]. Trata-se do samba Carne Seca Com Tutu. – A Victor já colocou n praça a última composição da dupla Alberto Rossi e Lazzoli[2], interpretada por Carlos Galhardo, intitulada O Resto é Silêncio, uma inspirada valsa. – O primeiro disco da “Toda América” a ser colocado nas revendedoras é gravado por Nilo Sérgio, que pertenceu ao cast da Continental. Speak Low, beguine de Kurt Weill e Ogden Nash e aquele célebre Cavaleiros do Céu foi o que Nilo gravou neste seu primeiro disco para a novel etiqueta. – A versão da canção italiana que celebrizou Gino Bechi, então conhecido apenas por um número reduzido de pessoas, Estrada do Bosque, de C. A. Bixio, foi gravada por Francisco Alves para a Odeon. Já ouvimos as provas e ficamos otimamente impressionados. Em próximas notas analisaremos o disco.

Elizeth Cardoso
– Vários artistas da Continental passaram-se para a nova etiqueta “Toda América”: Nilo Sérgio, Ademilde Fonseca, a orquestra de Francisco Sergi foram os primeiros. – Em compensação, o novo selo nos vai apresentar valores novos, como Araci Costa, Elizeth Cardoso, Marchelli,[3] Dupla Zoológica, Os Boêmios, Helena de Lima e outros. A garota, ao que se diz, de maior prestígio na nova marca é Elizeth Cardoso, que é dona de um timbre vocal interessantíssimo. Gravou ela, Complexo, samba de Wilson Batista e Magno de Oliveira, e Canção de Amor, de Elano de Paula[4] e Chocolate. – Dentro de alguns dias a Continental colocará nas revendedoras as recentes gravações do conjunto de Georges Henry, com William Fourneau. Trata-se, como já noticiamos, das seguintes gravações: Holiday for Strings, Dança do Sabre, Que Nem Jiló e Trem-o-lá-lá. William Fourneau, com o seu assovio e os seus malabarismos vocais, tem papel de destaque nas aludidas gravações, que, aliás, serão alvo de nossos comentários, posto já havermos ouvido as provas correspondentes.

E é só, por hora.



Na foto: Fernando Torres, um dos mais categorizados boleristas da constelação Odeon, está presente no suplemento do corrente mês da famosa etiqueta. Quiereme... Pero Quiereme, bolero-mambo de Alfredo Parra, que Chucho Martinez já gravou, já faz algum tempo, para a Continental; e Amorcito Corazón, bolero de Manuel Esperon e Pedro de Urdemalas, também já gravado por Chucho Martinez para a etiqueta dos três sininhos, são os números que o jovem cantor nos oferecerá, aliás muito bem vocalizados e interpretados de maneira superior, condizente com o seu renome.


[1] Deve ser Amâncio Cardoso, mas há equívoco, porque o samba Carne Seca com Tutu é parceria de Ary com Vilma de Azevedo.
[2] Na verdade uma pessoa só, o maestro Alberto Rossi Lazzoli.
[3] “Marchelki” no original. Suponho que J. refira-se a Vicente Marchelli.
[4] Irmão mais velho do grande Chico Anysio.

Diário da Noite, 1º de setembro de 1950

AINDA VILLA-LOBOS

Não faz muito, focalizamos neste canto de coluna, várias gravações de obras de Heitor Villa-Lobos, levadas a efeito nos Estados Unidos, pela Columbia, e na Suíça. Isso vem revelar que o fecundo e inspirado maestro brasileiro vem de ser “descoberto”, tanto pelo público europeu como pelo norte-americano. Tanto é assim, que enorme é o interesse das gravadoras, especialmente da Columbia e da Capitol, pelas obras do querido mestre. Ainda agora, por exemplo, a Columbia (americana) gravou, em execução da famosa Philarmoni-Simphony Orchestra of New York, sob a direção de Efrem Kurtz, a partitura do bailado Uirapuru, de Villa-Lobos, numa interpretação – segundo os mais categorizados críticos de discos – das mais soberbas e fiéis, observando-se a segurança da regência de Efrem Kurtz.

Recorda-se que, na Suíça, a pianista canadense Ellen Ballon gravou o primeiro Concerto de Villa-Lobos, para piano e orquestra, composição essa, aliás, dedicada à pianista quando ela esteve no Brasil realizando uma série de concertos. As notícias referentes a essa gravação dizem tratar-se de uma obra impecável. Todavia, não mencionam a etiqueta da fábrica que levou a efeito a empresa. Seria a Elite? Se foi, aqui vai o nosso lembrete aos diretores da Elite nacional. Valeria a pena realizar a edição nacional da gravação em apreço, porquanto se trata de um dos mais belos concertos para piano e orquestra e a gravação suíça está isenta de defeitos.

Efrem Kurtz
Por outro lado, a Decca (inglesa), através do seu último suplemento, está anunciando várias gravações de obras de Villa-Lobos, o que demonstra que também os ingleses acabam de “descobrir” o nosso compositor. Coube ainda à pianista canadense Ellen Ballon realizar as gravações para a Decca. As peças escolhidas foram: Pobre Cega e O Pintor de Cannahy; A Maré Encheu e Passa, Passa, Gavião. Foi com simpatia que a crítica especializada recebeu as gravações em apreço, embora alguns comentaristas britânicos tenham se revelado de uma santa ignorância no que diz respeito à obra do autor patrício, chegando mesmo a dizer ser frisante a influência espanhola nas páginas de sua pena...

Temos a esperança de que tais gravações, não demore muito, cheguem até nós para podermos admirá-las de perto, especialmente a do Concerto nº1 que, por certo, a Elite nacional por ele se interessará, posto que a gravação foi executada na Suíça, onde está instalada a matriz da aludida gravadora. Por enquanto, resta-nos a satisfação de saber que a arte de Villa-Lobos já começou a chamar a atenção das mais cultas platéias do mundo, através do disco.

Heitor Villa-Lobos em 1955
Na foto: Que Heitor Villa-Lobos vem de conquistar a admiração das mais cultas platéias do mundo, já não resta a menor dúvida. A prova está no interesse ultimamente demonstrado pelas gravadoras inglesas e americanas às suas obras. É sempre com satisfação que registramos o aparecimento de novos discos com gravações de partituras do festejado compositor patrício.